Ando devagar porque já tive pressa e levo
esse sorriso porque já chorei demais
(Almir Sater / Renato Teixeira)

por Everaldo Leite*

A epígrafe musical tem tudo a ver com este momento conjuntural, ao menos quando o assunto é a economia goiana, que merece urgentemente uma reflexão. Goiás cresceu muito nas últimas décadas em função de um dinamismo peculiar e de um grande esforço conjunto entre Estado, setor privado e sociedade.

Incentivos fiscais muito competitivos e oportunidades reais bastante evidentes – além de uma adequação básica da infraestrutura – robusteceram a economia em nosso território e deflagraram uma interessante diversificação produtiva. Forte implementação tecnológica e vultosos investimentos em capital marcaram esse período. Os fluxos internacionais cresceram significativamente, tanto pelo lado das exportações como das importações. Muitos empregos foram criados, a renda cresceu substancialmente e nova força de trabalho foi atraída de várias localidades para se estabelecer em Goiás.

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O agronegócio precisa se modernizar com políticas sustentáveis para continuar a ser o motor da economia goiana | Divulgação

Todavia, esse esforço conjunto é um caminho que agora chegou a uma encruzilhada na qual novas decisões serão inevitáveis. É preciso readequar o modelo vigente, elevá-lo para um próximo patamar, que represente um novo momento virtuoso para os goianos. Apesar de ter havido aumento efetivo na renda dos goianos, na média a renda de nosso trabalhador é ainda muito baixa, mesmo daqueles que estão na grande indústria. A qualidade de vida, aliás, não é muito melhor do que aquela verificada em regiões mais pobres do país. De 246 municípios, podemos dizer que 14 determinam o produto interno bruto (PIB) de todo o Estado. Os outros 232 municípios vivem basicamente do parasitismo público, dos canais de transferência e dos fundos de participação, o que faz conservar nessas cidades um atraso socioeconômico crônico.

Além disso, regionalmente o dinamismo econômico está concentrado no Centro-Sul de Goiás, fazendo com que grande volume de infraestrutura esteja localizado também nessa parcela do Estado. Isso dificulta a homogeneidade do crescimento e gera uma desigualdade complexa. O Centro-Norte se tornou um espaço demográfico esvaziado, com enormes rebanhos, um potencial turístico a ser melhor explorado (conserva uma natureza esplendorosa) e notável círculo vicioso de pobreza em vários municípios. O Oeste goiano não é muito melhor do que isso, mesmo tendo forte potencial na produção pecuária e agroindustrial. O Entorno do Distrito Federal é uma questão à parte, visto que a concentração de problemas sociais ali tem a ver com uma segregação produzida pela própria capital brasileira.

De fato, se o objetivo proposto for mesmo o desenvolvimento, a continuidade do modelo atual é a receita para o aprofundamento dessas discrepâncias, desigualdades e incongruências.

Pressa, suor e lágrimas

O impulso para o crescimento goiano desde a década de 1970 foi bem-sucedido porque a ideia de desenvolvimento da época exigia pressa, suor e lágrimas. Neste momento, quando digo que é necessário ir mais devagar, como na música do Almir Sater, não é o caso de reduzir o ímpeto pelo crescimento ou pelo progresso do Estado. Devemos andar sem pressa no sentido da prudência em relação ao futuro do nosso território, para que esse crescimento se sustente no longo prazo. O risco é alto e as incertezas são enormes, por exemplo, quando pensamos em algo tão simples como a finalização do programa de incentivos fiscais vigente. Volta e meia isso retorna à pauta de discussões no Brasil. Sabemos que, em função de um mercado consumidor vultoso, o Sudeste brasileiro atrairia várias de nossas empresas para aquele centro de gravidade econômico, deixando-nos indefinidamente sem novos investimentos.

Reduzir os riscos é preciso, desenvolver novas atividades também. Está na cara que o crescimento deve continuar sendo incentivado por meio de um agronegócio moderno, especialmente pelos investimentos na agroindústria e sua disseminação em outros vários municípios onde se possam gerar negócios integrados com sustentabilidade ambiental. Indústrias desse segmento, além de serem mais resistentes aos ciclos econômicos e crises, obtêm vantagens competitivas se estiverem próximas do mercado fornecedor e a uma distância vantajosa dos mercados consumidores. Goiás, além de otimamente posicionado na região central do País, possui uma grande produção de grãos e carnes e uma relevante agricultura familiar, permitindo grandes negócios baseados na integração e no aproveitamento energético. De forma estratégica, a cadeia produtiva pode ser mais bem internalizada no Estado, incentivando o crescimento da produtividade, a intensificação do uso de tecnologia, de técnicas sustentáveis e o aumento da renda em municípios hoje negligenciados no processo de desenvolvimento.

Muitas pessoas que vivem o dia a dia das grandes cidades mal sabem o que acontece no restante do território goiano, suas carências e dificuldades. Evidentemente, as questões de uma região metropolitana são de outra ordem e o problema do desenvolvimento homogêneo de todo o Estado necessita ser observado do ponto de vista de nossas vantagens competitivas em suas diversas microrregiões.

Se na grande cidade faltam empregos no setor de serviços e no segmento da construção civil, no interior do Estado, em várias localidades, morre a esperança de que algo mude sua realidade bucólica. A dependência da caridade pública e das alternâncias de poder nos municípios precisa ser trocada pela independência cívica advinda da renda privada, das oportunidades de mercado e das chances de prosperidade. Um vendedor de balas, em seu empreendedorismo familiar “por necessidade”, numa esquina de Goiânia, provavelmente possui renda média maior do que um morador de um município goiano estagnado. O próximo governo do Estado precisa ter tal consciência e um programa correspondente.

Entretanto, para compatibilizar as necessidades dos goianos com as ações políticas do governo, o setor público em Goiás, extremamente pesado, também precisa se modernizar, valorizando a técnica, e determinar a minimização de seus processos por meio do emprego de tecnologias da informação e alocação correta de seus profissionais. A burocracia precisa ser promotora de velocidade em processos internos, não fator de engessamento das atividades privadas. A redução no número de secretarias precisa ser iniciada pela extinção iminente de várias inutilidades públicas, consumidoras de recursos e destinadas somente a sustentar os empregos de cabos eleitorais de baixa qualificação.

O próximo governo deve, ainda, revisar os inúmeros contratos em todas as esferas, que não raramente se tornam verdadeiros sumidouros do dinheiro público. O Estado tem de se preparar economicamente para assumir investimentos prioritários nas áreas da educação, da saúde e da segurança pública. A infraestrutura precisará de uma maior atenção, especialmente na elaboração de parcerias público-privadas. Os serviços públicos em Goiás estão a um abismo gigantesco de distância desses que os governos populistas têm apresentado.

Populismo assistencialista fez paliativos virarem regra

A verdade é que o populismo assistencialista instituído em Goiás tem custado caro para o futuro do seu povo. Cartões, bolsas etc. deveriam ser paliativos, mas se tornaram regra. Aumentar o nível educacional e o aperfeiçoamento profissional é quebrar as barreiras do populismo assistencialista.

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Educação precisa ser de fato política prioritária do próximo governador para dar sustentação à economia goiana | Divulgação

A fronteira atual, portanto, é a instituição de um programa de governo pró-educacional. A educação orienta os cidadãos para a busca do seu melhor, o que acaba por motivar maiores índices de produtividade e melhores e mais duradouros empreendimentos. A educação não se resume a isso, logicamente, mas para que a dimensão econômica se torne mais sustentável ao longo do tempo é necessário se falar em formação de capital humano e de empreendedores.

As universidades públicas em território goiano são atualmente pouco vinculadas às demandas dos segmentos produtivos (as privadas muito menos), além de pouco contribuir com conhecimento e progresso tecnológico nas áreas de maior potencialidade. Elas produzem o que podem, mas lhes faltam incentivos para perseguir as prioridades dos setores produtivos goianos. Os resultados efetivos disso são os piores, com empresas consumindo tecnologia e inovação de outras localidades e profissionais se formando para não assumir vagas que exigem outro tipo de formação.

Seja quem for o próximo governador de Goiás, ele terá de repensar o novo caminho, com visão readequada e mirada para o futuro, tendo o cuidado e a responsabilidade com os recursos públicos, com o meio ambiente e com a ininterrupção do crescimento. Seria uma tragédia a continuidade do atual modelo, que busca nas diversificações produtivas algum rumo estratégico, já que se baseia tão somente na atração de empresas por incentivos fiscais e na concentração destas em alguns poucos polos e distritos.

Os modelos modernos de integração agroindustrial para a produção de alimentos, bebidas e energia se mostram mais sustentáveis economicamente no longo prazo, nem sempre exigem incentivos fiscais e permitem um uso mais sustentável do solo, buscando-se maior produtividade, e uso racional da água. A busca por inovação nesse âmbito incentivará o aperfeiçoamento profissional no mesmo sentido, aproximando a universidade do setor produtivo. A disseminação de novos negócios entre municípios hoje negligenciados, somada ao desenvolvimento de capital humano e à formação de empreendedores, romperá laços com o populismo assistencialista em nome de uma ideia de prosperidade. Ora, a prosperidade, a qualidade de vida e o melhor aproveitamento ambiental poderia fazer de Goiás um Estado referência para as outras unidades federativas.

Enfim, seja quem for o próximo governador de Goiás ele precisa se desvencilhar, em seus primeiros atos, de um tempo velho e de um modelo que já deu o que tinha de dar.

Everaldo Leite é economista.

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