Uma conversa imaginária com o craque – ou com o texto lido pelo jogador – para “bater uma real” sobre o que ele anda pensando da vida e das críticas

Depois de ver e rever o comercial de TV do aparelho de barbear em que a voz de Neymar aparece durante um minuto e meio e finalmente reage às críticas sobre sua atuação na Copa do Mundo (repleta de quedas, rolagens e simulações), me propus a dialogar com aquele texto lido com uma voz mecânica e pouco espontânea – ou pelo menos nada à vontade. Deu nisso aí que se segue.

— Trava de chuteira na panturrilha, joelhada na coluna, pisão no pé. Você pode achar que eu exagero e às vezes eu exagero mesmo. Mas a real é que eu sofro dentro de campo.
Sim, Neymar, vou te contar um lance: a vida é dura, inclusive para os jogadores. Especialmente para os habilidosos, como você. Esses sofrem mais dentro de campo, até porque a bola geralmente vai parar em seus pés mais vezes. É matemático. Lionel Messi apanha muito também – mas não “exagera”. Também por isso (mas não só por isso), os mais habilidosos ganham bem mais do que o zagueirão ou o volante que faz a falta.

img 622843 em ibiza neymar passa o dia em iate com irma rafaella20140802121406991901 300x156 - Diálogos possíveis: um papo reto com o Neymar da propaganda da Gillette
Neymar ao lado da irma Rafaella (direita) em um iate na cidade litorânea de Ibiza, na Espanha | Reprodução Instagram

— Agora, na boa, você não imagina o que passo fora dele.
A gente imagina, sim. Muita fama acarreta também muita falta de privacidade. E isso é ruim. Às vezes talvez tudo que você quisesse seria ir à padaria preferida em Paris comprar uma baguete. Ou fazer negócio naquela corrente de ouro na loja top do shopping mais chique, tá ligado? E se um paparazzo te pega numa balada numa noite antes de um jogo importante? Aí é ruim, hein?! Sei que você fica ilhado sempre, inclusive quando vem aqui no teu país, mas tem ideia do que as pessoas comuns passam aqui no Brasil? Fila do SUS, escola pública sem merenda, transporte coletivo sucateado, desemprego fungando na nuca, assaltante batendo ponto na esquina… Quer sofrimento maior? Quer trocar de vida com alguém com essas dificuldades “fora de campo” aí por uma semana?

— Quando eu saio sem dar entrevista, não é porque eu só quero os louros da vitória, mas porque eu ainda não aprendi a te decepcionar.
Neymar, chega aqui: já tem quase dez  anos que você é jogador profissional, cara. Já foi aplaudido e vaiado inúmeras vezes, perdeu, ganhou, chorou, vibrou e… até hoje nessa de não aprender o básico do esporte, vitória e derrota, fracasso e sucesso? Dá não, parça!

— Quando eu pareço malcriado, não é porque eu sou um moleque mimado, mas é porque eu ainda não aprendi a me frustrar.
Realmente, você anda mesmo precisando levar a boca com sabão, seu custoso! Mas deixa eu tentar te entender: você então não é um guri mimado, só não dá conta ainda de lidar com os reveses da vida sem dar um pitizinho básico… é isso? Ou seja, não é “mimado”, apenas não consegue ficar suportar as contrariedades… Então essa parte do teu texto foi cilada, brother! Risca fora isso aí.

— Dentro de mim ainda existe um menino. Às vezes ele encanta o mundo e às vezes ele irrita todo mundo.
Não é do seu tempo, mas tem uma música massa do Fernando Brant – chamada Bola de Meia Bola de Gude – que começa com “há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração/ toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão”. O menino moleque é pra ajudar o adulto e não pra passar um trote nele, mano. Dá um jeito de passar urgente dessa tua fase do “ninguém tem paciência comigo!”.

— E minha luta é para manter esse menino vivo, mas dentro de mim e não dentro de campo.
Só uma pergunta: então ele vai ficar vivo dentro de você, mas quando for pro jogo, você tira o menino, guarda no armarinho do vestiário e diz “espera aí que agorinha eu volto”?

— Você pode achar que eu caí demais, mas a verdade é que eu não caí: eu desmoronei.
A verdade é que caiu demais mesmo, menino Ney! Se depois também desmoronou, como você diz – imagino que pensando na repercussão negativa em nível mundial de suas quedas e roladas sequenciais transformadas na maior diversidade de memes da história recente –, foi consequência de ter caído tanto e rolado mais ainda! Se liga!

— Isso dói muito mais do que qualquer pisão em tornozelo operado.
Desnecessário apelar para o lado da comoção, parça. Todo mundo sabia que você vinha de cirurgia, mas todo mundo sabia também que ninguém seria louco de te colocar ali à força, na marra. Você jogou porque quis e, se não estava 100% e forçou a barra, só mostrou que se colocou acima dos interesses do grupo. Era chegar pro professor Tite, seu fã, e bater a real!

— Eu demorei para aceitar as suas críticas. Eu demorei a me olhar no espelho e me transformar em um novo homem.
Eu também vou demorar  a acreditar que você tenha mesmo aceitado as críticas e se transformado em um novo homem (na boa, pai? Esse “novo” tá sobrando). Até pela maneira que você usou para falar isso, olha aí: num comercial de uma empresa que te patrocina. Como a gente vai saber se você está se pronunciando sinceramente ou fazendo bonito pra vender aparelho de barbear? Para na frente do espelho e pensa sobre isso, valeu?

— Mas hoje eu tô aqui, de cara limpa, de peito aberto.
Nem tá, mano. Passou numa propaganda no meio do Fantástico. Não teve “enfrentamento”. Não foi numa mesa redonda desses programas esportivos, ou numa coletiva aberta à imprensa. Nem que fosse com um microfone no meio de um treino do PSG, era você quem tinha de falar de fato, direto, encarando as pessoas, a torcida, os repórteres mais chatos e perversos. Mas no comercial só aparece sua voz lendo – com esse sotaque espontâneo de quinta série, né?  – um texto que nem sei se foi você quem escreveu. Aí ferra o lance, craque!

— Eu caí, mas só quem cai pode se levantar.
Eu sei o que você quis dizer, mas pareceu um colega comentarista que uma vez soltou tipo um “vai ganhar o time que fizer mais gol”.

— Você pode continuar jogando pedra ou pode jogar essas pedras fora e me ajudar a ficar de pé.
Sério, para com isso de achar que todo mundo está te sacaneando, mano. Ninguém quer jogar nada em você, quanto mais continuar a jogar. A gente só fica meio puto por saber o talento desperdiçado aí nessas pernas que caem e rolam enquanto poderiam ser magnificamente guiadas por uma cabeça mais centrada, mais focada, mais disciplinada e menos deslumbrada com a fama, menos preocupada em “ser o número 1”. Taí, espero que esse trecho aqui do nosso papo te ajude a ficar de pé, literalmente e metaforicamente.

— E quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo.
Isso, velho! De pé, mas junto com os parças, também conhecidos como “outros jogadores”. O Brasil vai se levantar contigo quando você deixar de achar que é o messias, o “cara” – até porque já basta um Cristiano Ronaldo, deixa pra só a gente achar você o máximo. No mais, fica de boa, faz uma temporada tranquila, para de encher o saco de juiz e de tirar os adversários, muda menos o penteado, usa menos o Instagram, troca umas ideias com o papai Buffon e vai ver: daqui um tempo ninguém mais vai ligar “neymar” ao verbo “cair”. Stand up, parça!

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.