Ninguém esperava que Jair Bolsonaro fosse a algum baile de máscaras, ou passasse na Sapucaí para ver algum desfile, ou ainda pulasse como pipoca em algum trio elétrico de Salvador.

Mas, sem fazer nada disso, o presidente conseguiu ter um carnaval cheio de folia – principalmente se tomarmos o cognato francês para o termo.

Folie, na língua gaulesa, tem basicamente três significados: 1) ato irracional; 2) gosto excessivo por alguma coisa; 3) demência.

E, realmente, quem acompanhou os passos trôpegos de Bolsonaro no Twitter neste feriado viu alguém fora de si. Tire o cargo que ocupa e coloque à parte: ainda assim não se poderia achar normal alguém que vá à rede perguntar “o que é golden shower?“.

Afinal, quem tem uma rede social também tem Google à disposição para satisfazer essas curiosidades. Então, quem lê agora pode procurar o significado, que vai muito além da tradução literal chuva dourada.

O contexto da expressão vem de outra publicação polêmica anterior do presidente: um vídeo pouco adequado para ser exposto na internet, mesmo para maiores de 18 anos. Ele se aproveita do exagero lascivo de um casal de homens sobre uma plataforma para criticar o que ocorre no carnaval.

bolsonaro vídeo carnaval 259x300 - De "golden shower" a zoação de artistas: Freud explica o carnaval de Bolsonaro

Realmente é uma cena deprimente, mas que não é nenhuma novidade em termos de exagero em períodos carnavalescos. Em tempo: não é novidade, mas não é a regra dos blocos de rua, nem mesmo dos mais audaciosos.

Mais deprimente, então, torna-se o comportamento de Bolsonaro: um presidente que compartilha um vídeo inapropriado (tanto que o próprio Twitter censurou sua publicação) sobre uma manifestação excessiva, mas que também é exceção, para “expor a verdade para a população”.

E a obsessão para fiscalizar o comportamento humano continuou em várias postagens, principalmente se dirigindo a artistas opositores, que supostamente se beneficiaram da Lei Rouanet. Bateu boca com jornalistas e criticou veículos de comunicação.

Assim foi a folia de Bolsonaro. Desceu da fantasia de presidente e entrou nas redes disparando impropérios como um bom tiozão do churrasco.

Um psicanalista diria que lhe incomoda exatamente essa fantasia que agora veste, eleito para o mais importante cargo do País. Nele, não pode ser livre como gostaria para disparar os impropérios e insultos de que fazia constante uso quando era um simples parlamentar folclórico.

Daí que, no período do ano em que a tradição não escrita dá aos brasileiros o direito de se esbaldar como quiser – bebendo, cantando, dançando, transando e outros tipos de excesso –, Bolsonaro fez a folia de seu jeito: sendo o que sempre foi, liberando o que há de mais real em si.

Pode ser que Bolsonaro esteja emulando Donald Trump, que tem um grau avançado de insanidade digital e faz do bate-boca nas redes um labor diário. Ocorre que o doidão-mor das Américas tem por trás de si a estrutura do Partido Republicano como retaguarda. Na pulverizada estrutura partidária brasileira, com a sombra do general Mourão sobre si, que segurança tem Jair para seguir o exemplo?

Quem sabe perguntar sobre “golden shower” e zoar artistas tenha sido apenas loucura de folião. No entanto, se continuar a agir de agora em diante dessa mesma forma, a psicanálise tem outra hipótese para o Mito: autossabotagem. Pode ser que, de uma forma inconsciente (ou nem tanto), a fantasia de presidente esteja incomodando demais a figura que a veste. E então a coisa fica mais séria do que enfiar o pé na jaca no carnaval.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.