Com o pai internado entre a vida e a morte há quase três meses, Daniel Vilela foi seu esteio político: os olhos e ouvidos, os braços e pernas de Maguito Vilela.

Conduziu a campanha de forma serena e, no fim, o MDB conseguiu ser reconduzido à Prefeitura de Goiânia de modo até relativamente tranquilo nas urnas, mesmo com seu candidato intubado em um hospital a 900 quilômetros de distância e diante do apoio do governo do Estado ao oponente.

Em seguida, Daniel gerenciou a transição, atuou na escolha dos auxiliares do Paço e deu o suporte necessário para que o vereador e vice-prefeito eleito Rogério Cruz (Republicanos) se sentisse confortavelmente acolhido para ocupar a posição inesperada e, até nesta terça-feira, provisória, neste início de nova gestão.

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Mas sempre tem um mas.

O mundo da política é sedutor: envolve quem nele atua, do próprio político aos repórteres da área, passando por assessores e adversários. Tudo que se faz parece se voltar “para” os fins, cada gesto vira um “aceno”, cada conversa gera buchichos. Um café com alguém não é só um café. Nada é considerado espontâneo.

O político fica desumanizado, vira refém da própria posição que ocupa. Não há mais dimensão pessoal. Dentro das mangas de camisa, empacotado num terno-e-gravata, se intui que haja apenas interesses em votos, cargos e poder.

Tendo isso em vista, a foto publicada por Daniel Vilela para homenagear o pai em sua despedida derruba todas as expectativas. Um senhor de chapéu, camisa amarrotada e para fora da calça, caminhando em uma paisagem rústica em sua fazenda segurando algo (talvez um facão dentro da capa) na mão: quem teria essa imagem de Maguito?

Não havia políticos ali; era um filho homenageando o pai com a lembrança que mais lhe trazia aquele sentimento. E seu pequeno texto-declaração nas redes sociais falava disso:

“Durante muitos dias queria fixar meu olhar nessa foto que a Flávia me enviou, mas não conseguia porque ela me trazia o sentimento que ele estava partindo, com a roupa que ele mais gostava e no local que ele mais amava: a fazenda em Jataí. E hoje, infelizmente, o meu melhor amigo partiu. O meu impecável pai, Maguito, o maior exemplo e minha maior referência. Não consigo não ser egoísta nesse momento. Queria ele ainda por muitos anos com a gente… Nessas horas ficamos pensando se poderia ter sido diferente, mas o que dizem – e eu concordo – é que para Deus tudo tem a sua hora, e a dele foi agora e da forma que precisava ser, ao lado dos seus filhos, e dizendo até breve. Descanse em paz! Obrigado, Deus, por me permitir amar e ser amado tanto pelo meu Pai!!”

maguito vilela scaled - Daniel Vilela e a foto de Maguito: sobre aparência e essência

A publicação viralizou nos perfis do filho no Twitter, no Facebook e no Instagram. Só nesta última rede, foram 46 mil reações e quase 7,5 mil comentários até o meio-dia desta quinta-feira.

Redes sociais são usadas frequentemente para criticar, xingar e acusar políticos. A foto publicada por Daniel “quebrou as pernas” da internet sem coração: mostrava a essência e não a aparência. Ali, se fala de sentimento e de família, de amor e de dor. Não há política nem políticos; são pessoas perdendo uma pessoa querida.

A simbologia da foto é triste e ao mesmo tempo maravilhosa. Naquela caminhada bucólica flagrada por aquele click na roça, vai rumo à luz o pai de Daniel, Vanessa, Miguel e Maria Beatriz; o marido de Flávia; e um homem que, em seu ofício-vocação, só fez construir: serviu a seu Estado e a seu País, transformou a história de Aparecida de Goiânia e estava pronto para dar nova vida à capital.

Uma curiosidade pessoal não será satisfeita. Maguito levou com ele a resposta para um questionamento que eu e muitos jornalistas fariam: “O que o sr. teria a dizer àqueles que, em meio à campanha eleitoral, acusaram sua chapa de estar escondendo a gravidade de sua doença e até mesmo espalhando boatos de que o sr. já teria morrido?”

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Gostaria de ter ouvido isso da boca dele, mas tenho quase certeza de como seria a resposta. Maguito, do alto de sua elegância e diplomacia, diria talvez: “São coisas de momento eleitoral, em que as pessoas estão com os nervos à flor da pele e às vezes exageram nas palavras. Mas isso é coisa do passado e agora o que temos a fazer é trabalhar.”

Maguito era assim. Eu o entrevistei algumas poucas vezes, mas não foram poucas vezes que vi sua fala e seu proceder. O político mais completo de Goiás. Cumpriu sua missão. Nosso lamento é o de cidadão: ele vai fazer muita falta por aqui.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.