Alexandre Cunha

Como disse Cobb, o personagem de Leonardo Di Caprio, em A Origem (Inception, 2010), a coisa mais infecciosa que existe não é um vírus ou um parasita, é uma ideia. Uma vez que ela se instala em sua mente é quase impossível removê-la.

Há algo ainda potencialmente mais perigoso: apaixonar-se por uma ideia. A paixão por uma ideia faz com que as pessoas rejeitem de imediato toda e qualquer evidência que contrarie o conceito básico pré-formulado e veem as contestações àquela como ataques pessoais ou movidos por motivos escusos.

O apaixonado passa então a empreender uma cruzada quixotesca contra moinhos de vento, não importa o quão obviamente fantasioso seja tudo. E sempre há bons Sanchos a acompanhá-lo.

Com o advento da epidemia, estamos assistindo cenas até pouco tempo inimagináveis. Dezenas ou centenas de médicos que nunca trataram moléstias infecto-contagiosas (muitos inclusive de especialidades que não tratam paciente algum) se tornaram “especialistas” ou “referências” no tratamento da covid-19 em alguns meses ou semanas, basicamente com conhecimentos adquiridos em grupos de Whatsapp onde são trocadas “experiências pessoais”.

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Contrariando todas as recomendações dos especialistas que estão acostumados (e estudaram anos ou décadas) a tratar doenças virais com acometimento pulmonar grave (infectologistas, pneumologistas, intensivistas), aventuram-se a estabelecer protocolos de tratamento precoce para covid-19 sem nenhum embasamento na literatura científica com os argumentos de que há urgência e que a observação deles basta.

Mesmo com todas as sociedades de especialidades médicas das áreas afeitas tendo se manifestado contra o uso das medicações fora de protocolos de pesquisa clínica, seguem em seu Rocinante investindo contra os “inimigos” do tratamento e acusando os médicos que agem com cautela e não fazem os pacientes de cobaias de “não quererem salvar vidas”

As afirmações são feitas basicamente pela experiência pessoal dos participantes dos “grupos”, onde relatam seus “bons” resultados uns aos outros. Daí já se nota uma ingenuidade quase infantil

A grande maioria dos árduos defensores dos kits de tratamento precoce propaga não apenas um efeito benéfico do tratamento, mas resultados surpreendentes, como nunca antes vistos em tratamento algum para qualquer doença que seja. São comuns frases do tipo “Ninguém vai para a UTI se tomar o kit”, “todos os pacientes foram curados”.

As afirmações são feitas basicamente pela experiência pessoal dos participantes dos “grupos”, onde relatam seus “bons” resultados uns aos outros. Daí já se nota uma ingenuidade quase infantil: para uma doença onde 80% das pessoas vão evoluir de forma assintomática ou sintomática leve, 95% das pessoas não precisam hospitalização e menos de 1% vem a falecer, ao se tratar um grupo de pessoas com qualquer coisa que seja as chances são enormes de que o paciente melhore, não por causa do tratamento, mas apesar do tratamento.

Tratei pessoalmente centenas de pessoas com dipirona e os resultados foram maravilhosos e nem por isso vou fazer lives divulgando os fantásticos efeitos antivirais da dipirona. Um tanto quanto óbvia essa constatação, mas os defensores do tratamento precoce esquecem a importância de comparar seus dados a dados de pacientes não tratados.

O efeito de Dunning-Kruger é muito evidente neste grupo. Esse experimento social realizado na década de 90 demonstrou que quanto menos um indivíduo conhece sobre determinado assunto, mais ele tem convicção sobre sua sapiência no ramo.

O inverso também é verdadeiro: quanto mais especialista no assunto, mais cauteloso o indivíduo é em suas afirmações, tendo cautela nas conclusões e por vezes até subestimando o próprio conhecimento.

live alexandre garcia 1 - Covid, DiCaprio e Dunning-Kruger: sai a cloroquina, entra a ivermectina
Live de jornalista Alexandre Garcia fez com médicos defensores do uso de remédios sem comprovação para tratar covid teve mais de 1 milhão de acessos | Reprodução

Nesta epidemia, assistimos a longos vídeos de uma médica ultrassonografista – importante especialidade de diagnóstico, mas que não trata doença alguma – falando com propriedade dos efeitos antivirais da ivermectina. Em alguns minutos, vemos informações bizarras como “na África não há covid porque usam ivermectina para tratar outras doenças”, sem a menor comprovação de correlação causal nessa afirmação.

Ignora-se por opção que a África tem diferenças demográficas, genéticas, climáticas, de comportamento social para eleger com certeza que a ivermectina é a diferença. Por que não dizer que o plasmódio (causador da malária) combate a covid? Seria uma hipótese tão razoável quanto.

Podemos afirmar que na Austrália não há dengue porque os cangurus comem os Aedes? Esse tipo de correlação absurda para provar uma tese não pode encontrar refúgio no meio científico. A total inexistência de estudos mostrando qualquer efeito da droga não impede os defensores da terapia com o argumento de “temos que fazer algo” mesmo nunca tendo sugerido algo para dengue, que há décadas assola o País e para a qual também não há tratamento específico.

Por que não usar chá de boldo,  cápsulas de gérmen de trigo, sementes de girassol ou ozonioterapia intra-retal ao invés de ivermectina, já que estão todos em igual patamar de evidência científica? Depois do falecimento da cloroquina, derrotada por um sem número de estudos científicos demonstrando sua ineficácia seja como prevenção, em uso precoce ou uso tardio, há de se eleger um novo salvador da pátria.

A total irracionalidade da abordagem do dito “tratamento precoce” se percebe quando a cada dia aparecem mais candidatos que se somam ao “coquetel”, numa clara manifestação de “não sabemos o que estamos fazendo, então vamos fazer um pouco de tudo”. Cloroquina, azitromicina, zinco, vitamina D, ivermectina, nitazoxanida, anticoagulante e corticoide. Algum desses deve funcionar, então administremos todos. Nenhuma preocupação com efeitos adversos, interações medicamentosas ou efeitos inesperados devido às peculiaridades da doença.

O argumento é sempre o de que as medicações são “seguras e baratas”. AAS também é seguro e barato e usado até para uma simples dor de cabeça. Mas é contraindicado na dengue por aumentar o risco de hemorragias. Amoxicilina é antibiótico seguro e barato, dado até para crianças pequenas. Mas é contraindicado na mononucleose (doença causada pelo EBV), pois provoca rash cutâneo nessa doença.

São incontáveis os casos de medicamentos seguros e baratos que quando usados em algumas doenças específicas ou em combinação com outros medicamentos com os quais não foram estudados causam grandes danos à saúde. Mas isso tudo é esquecido em prol do “temos que fazer algo”. Esquecem-se os colegas que temos muito a fazer, para os que realmente precisam e não para a grande maioria que não precisa, que teria melhora espontânea e está sendo submetida a tratamentos sem eficácia comprovada e com possibilidade concreta de efeitos adversos.

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São incontáveis os casos de pacientes que tomaram os “kits de tratamento precoce” desde o primeiro dia de doença e evoluíram com formas graves da doença. Estes são observados pelos profissionais que estão realmente na linha de frente, atendendo dia e noite, presencialmente,  pacientes de covid nos ambulatórios e hospitais.

Os que “atendem” casos leves e assintomáticos, por vídeo ou mensagem, do conforto de suas casas e passam a maior parte do dia fazendo posts no Instagram ou trocando mensagens em grupos de Whatsapp não veem esses casos. Só ficam sabendo dos casos de “sucesso”, isto é, aqueles que melhorariam de qualquer maneira com ou sem os medicamentos. Os demais são salvos pelos médicos que fazem o que tem que ser feito.

Fica uma reflexão: alguém em sã consciência moraria em um prédio construído por um engenheiro florestal ou engenheiro químico, que acham que sabem construir um prédio porque são engenheiros tal qual o engenheiro civil? Alguém acometido por uma doença cardíaca, seguiria os “conselhos” de um grupo formado por infectologistas, dermatologistas, cirurgiões, ortopedistas e oftalmologistas para tratar sua doença se esses conselhos fossem contra o que recomendam os cardiologistas e as sociedades de cardiologia? Alguém com um tipo raro de câncer abandonaria as recomendações de quimioterapia dos bons oncologistas para seguir os conselhos que ouviram numa live com um jornalista, um pediatra, um endoscopista, um anestesista, um otorrino e um cardiologista que disseram ter estudado a doença, discutido com amigos e achado um tratamento melhor que o proposto pelos oncologistas?

Por mais bizarro que pareça, esse é o universo distópico em que vivemos atualmente. Especialistas formados pelo Whatsapp, disseminando tratamentos sem a mínima comprovação científica para pacientes desesperados. Mais um triste efeito colateral da pandemia. Nossa única esperança é que um bom Sancho tente convencer os Quixotes de que são moinhos e não dragões, mas se Cobb estiver certo, esse esforço será inútil.

Alexandre Cunha é infectologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília.


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