Texto 8 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Carlos Beto Abdalla

Alguns historiadores acreditam que, para um evento histórico estar em um livro didático e ser trabalhado em sala de aula, é preciso que tenham decorrido, pelo menos, 30 anos do fato. Nesse sentido, somente agora poderíamos trabalhar em sala de aula as eleições de 1989, o impeachment do Collor e, quem sabe, o Plano Real e o aparelhamento da República pelos tucanos a partir de 1994.

O que quero dizer com isso é que o historiador não apenas assemelha-se ao monstro da lenda apresentada por March Bloch, cuja caçada é exatamente farejar a carne humana, mas que também degusta lentamente as carcaças da história, indo por partes, como avisaram nossos colegas pandêmicos, Marcelo Brice e Ulisses do Valle (clique aqui e aqui, respectivamente, para ler os artigos publicados por eles neste ciclo).

Não iremos encontrar respostas aqui, mas iremos dialogar com a esperança de que as interpretações dessa encruzilhada na qual estamos possam nos ajudar a entender o caminho que virá.

Fui convidado por Marcelo Rizzo a escrever meu artigo pandêmico depois de lhe confessar não ter entendido muito sobre como podem os bolsonaristas terem sido fermentados no mosto da esperança, como ele discorreu em seu texto. Aos poucos, pelos artigos dos professores Marcelo Brice e Ulisses do Valle e também o da cientista política Ana Prestes, pude começar a entender como gafanhotos podem ser confundidos com esperança.

Há uma coragem nos textos, que buscam uma objetiva solução para o momento da pandemia; há coragem em acreditar que o bolsonarismo vem da esperança.

Não quero dizer aqui que os bolsonaristas são gafanhotos e muito menos que Rizzo fez alguma confusão; pelo contrário, dizer que o bolsonarismo é fruto da esperança é um atestado de sobriedade e amor ao Brasil.

É muito difícil encontrar tal frieza de análise no contexto de plena anomia social e política em que nos encontramos. Aqueles que votaram pela esperança, por essa mesma esperança hoje se sentem envergonhados; os que se envergonham, são os que conseguem observar o espelho.

A pauta trazida por Rizzo, segundo a qual “político bom é político preso”, seria uma essência brasileira de nobreza impetuosa e revolucionária? Ou seria uma essência vítima da anomia política (que no caso do Brasil é também anemia) e de uma cidadania que nunca existiu? Estaria esse sentimento patriótico e anticorrupção presente em nosso espírito desde sempre?

A encruzilhada da história em que nos encontramos exige boas doses de sociologia e mais ainda de psicologia. Machado de Assis, no conto O Espelho, trata de nos ajudar definindo que “nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira”.

Entre o “Meu partido é o Brasil” e o “Eu avisei”, existe a vaidade, que, como nos mostrou Brice, não nos levará ao que desejamos, que é a superação dessa onda consolidada que é o “bolsonarismo”. As almas brasileiras se encontram no purgatório do Fla x Flu, um “Ai Jesus!” na esquina da história destes Brasis.

A vaidade que se apresenta é a vaidade das redes sociais, é a praça pública do mundo de hoje, dos julgamentos à palma da mão. O não lugar permanente em que a tecnologia nos colocou, enquanto sociedade, é o mesmo que transformou e deslocou nossa República, ou pelo menos aquilo que cremos ser a democracia e sua falsa plenitude.

dia impeachment dilma - Corvos, anomias e urubus: o purgatório do Fla-Flu enquanto o Brasil dobra a esquina da história
Dia da votação da admissão do impeachment de Dilma Rousseff | Juca Varella / Agência Brasil

Sim, essa vaidade que nos dividiu em 2014, dos 51% versus 49% de Dilma e Aécio, segue muito mais forte hoje. A possibilidade de eu ou você, leitor, termos de colocar a cauda entre as pernas está em toda esquina, entre uma fake news e outra, estamos todos sujeitos a ela, e para piorar, estamos sujeitados a ela, politicamente.

Concordo que as fake news não colocaram Bolsonaro no poder; ajudaram, claro. Para mim, o ponto chave do bolsonarismo está na negação do resultado das eleições de 2014 e no impeachment de Dilma Rousseff.

Se Lula é uma ideia, Dilma também era – e das mais importantes. A derrocada da República ao negar o resultado das eleições de 2014 dá início ao estabelecimento do conservadorismo para, enfim, destruir a ideia que Dilma representava.

Dilma era muito mais que uma ideia petista ou lulista ali em Brasília. Ela desestruturou por completo a tradição conservadora do que vou chamar aqui de “primeiro-damismo”. Uma mulher era a presidente e isso bastava. Nas ordens simbólicas do mundo e da vida, Dilma era de um poder sem igual em uma sociedade como a brasileira, que sempre teve muito simbolismo e pouca prática, a começar por nossa bandeira.

Brasil, a República que nunca foi

“Ordem e Progresso” é uma ironia da ideia de República e cidadania que nunca existiu no Brasil e pesará mais ainda diante de uma pandemia. Em tempos de guerra, como os que caracterizam uma pandemia, não poderemos inventar uma cidadania, muito menos resgatar uma memória que nunca existiu.

Em tempos de guerra, como os que caracterizam uma pandemia, não poderemos inventar uma cidadania, muito menos resgatar uma memória que nunca existiu. Esta é a realidade do Brasil no momento: não temos uma memória de guerra e solidariedade que nos ofereça unidade para enfrentarmos o que se apresenta.

Esta é a realidade do Brasil no momento: não temos uma memória de guerra e solidariedade que nos ofereça unidade para enfrentarmos o que se apresenta.

A solidariedade de um povo nasce e se desenvolve em momentos de crise; aqueles que já possuem referências históricas como guerra e fome certamente saberão caminhar melhor. Os europeus talvez sejam o melhor exemplo disso.

Na América do Sul, o Brasil vai experimentar, infelizmente, o preço de ser uma “República que nunca foi”, lembrando aqui o caro termo do professor José Murilo de Carvalho.

Mais do que nunca ter sido uma República – ou pelo menos ter conseguido consolidar a ideia de cidadania no País –, arrisco-me a dizer que a República brasileira nunca enfrentou uma crise política, social e econômica que exigisse unidade, como a que a pandemia está exigindo. Nós sempre vivemos um Fla x Flu, mas nunca vivemos um Vasco x Flamengo, como é o que se anuncia nessa pandemia.

Quero dizer, com isso, que nossas crises sempre foram muito bem estabelecidas e divididas, sempre uma crise de poder, um Fla x Flu muito charmoso. Mesmo 1964 ainda pode ser chamado de golpe civil-militar, e isso nos mostra que infelizmente não são meia dúzia de jecas que querem esse revival.

O que a crise da pandemia e a superação do bolsonarismo anuncia é um embate de Corvos e Urubus, de Vasco x Flamengo, em que a disputa se dá pelas massas e pelos símbolos.

O Maracanazo e o 7 a 1: mística e galhofa em coalizão

Ouso afirmar que só houve duas crises na República brasileira que podem ser consideradas como momentos de coalização do País: o Maracanazo – a derrota para o Uruguai em 1950 – e o 7 a 1 sofrido da Alemanha em 2014.

Enquanto o Maracanazo foi um dos momentos mais místicos que o futebol poderia produzir, o 7 a 1, em termos estéticos, é o oposto da derrota de 50. Não é clássico, místico ou trágico – é a pura galhofa.

A encruzilhada presente nesses dois momentos da história do Brasil é bastante curiosa. A derrota de 50 está diretamente ligada ao Clube de Regatas Vasco da Gama, por meio do goleiro Barbosa [culpado injustamente pelo gol de Ghiggia que deu a vitória ao Uruguai]; a derrota de 2014, está indiretamente ligada ao Clube de Regatas Flamengo, pela camisa que a seleção alemã envergava, a famosa “respeita as cores” rubro-negra.

Uso Vasco x Flamengo como exemplo porque se trata do maior clássico esportivo do País e que envolveu, durante décadas, as duas maiores torcidas do Brasil. Trata-se bem mais do que um mero duelo esportivo: é um clássico que envolve a conquista dos espaços populares e de tudo que pode simbolizar a ideia de Brasil e povo brasileiro.

Quem acompanha futebol sabe como existe uma onda de faixas e marketing de clubes se intitulando “Clube do Povo”. Não que não sejam; eles existem em todas as cidades, mas, para melhor exemplificar, esse duelo carioca na capital da República é o que temos de mais precioso para pensar a alma machadiana e brasileira.

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O Corvo e o Urubu, mascotes durante muito tempo consideradas marginais de Vasco e Flamengo

Estamos entre Corvos e Urubus nessa encruzilhada pandêmica. O Vasco, como Corvo, tem em sua história a carta que representa a luta contra o racismo no futebol nacional, escrita por José Augusto Prestes – que, décadas antes, estava em Lisboa, em um levante para derrubar a monarquia portuguesa. Isso poderia ser tudo que um clube precisa ter para ser o mais popular do País.

Do outro lado, o Flamengo, o Urubu, pelo contrário, esteve do outro lado da mesa na luta vascaína contra o racismo no futebol, mas é o clube mais popular do País. O rubro-negro nesse caso, tinha o poder dos intelectuais brasileiros que souberam enxergar a necessidade da construção de uma imagem nacional ao absorver as características populares que ainda não possuíam. Para isso, necessitariam isolar o Vasco, torná-lo cada vez mais algo português e menos republicano e brasileiro.

Essa luta pelos símbolos nacionais nunca foi a pauta do Vasco nesse embate clássico com o Urubu. O Corvo sempre cruzou grandes momentos da história nacional sem esforço, desde a promulgação das leis trabalhistas no Estádio São Januário até o discurso de Luiz Carlos Prestes em 1945 para 100 mil trabalhadores no mesmo local.

Esse fato marcaria o clube para sempre. O presidente vascaíno Manuel Ferreira de Castro Filho, que autorizou o discurso de Prestes, teve de renunciar ao cargo após pressão de sócios e dirigentes.

Ao ter seu líder seguindo o caráter democrático que sempre caracterizou o clube e sendo afastado por isso, o Vasco entrou em um processo de anomia política semelhante ao do País em 2014, o que o faz, ainda que seja popular, parecer não ser ao enfrentar seu rival. Os Corvos não fazem parte da fauna brasileira, nem ao menos simbolicamente – melhor para os Urubus.

Se o que a superação do bolsonarismo exige é uma organização prática de protestos, não se sabe. Ainda mais em uma pandemia. Mas, na ordem simbólica do Brasil que temos hoje, essa organização não pode parar de ser pensada, repensada e enfrentada.

O discurso é uma prática. Estamos na esquina da história e sabemos que a história não transita em julgado. Se quisermos entender a ditadura e abrir uma comissão da verdade, os militares também deverão estar presentes. Se quisermos falar sobre democracia, teremos de intimar os bolsonaristas; se quisermos falar de anomia, interrogaremos os antipetistas. E, se quisermos falar de Corvos, teremos de observar os Urubus.


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Carlos Beto Abdalla
historiador, mestre em Estudos Literários pela UFG. Autoexilado na capital argentina desde 2017