Fim de jornada, paro os trabalho da madrugada para assistir a reprise do Fantástico.

No giro internacional, vejo o presidente da Argentina, Alberto Fernández, decretando a extensão do isolamento obrigatório (lockdown) até 7 de junho e dizendo que isso vai durar “o tempo que for necessário” para preservar a saúde do povo. “Para que los argentinos no se mueran”, ratificou.

A economia da Argentina não vai nada bem. Mas, com um quarto da população brasileira, porém 30 vezes menos casos confirmados (pouco mais de 12 mil) e 50 vezes menos mortes (452 na noite deste domingo, 25/5) causadas pelo novo coronavírus. Escolheram viver para então juntar os caquinhos da crise.

Aqui deste lado da fronteira, com uma estrutura mais robusta de sistema de saúde e sendo uma das dez maiores economias do mundo, com muita tristeza e indignação já tivemos de registrar mais de 360 mil contaminados e 23 mil mortes até a mesma data.

Matéria seguinte no Fantástico é o quadro memorial das vítimas da covid-19 no Brasil, com as histórias dos donos das vidas que se foram.

Vem a voz e o semblante de Lima Duarte para celebrar a memória de Seu Arturo, um imigrante espanhol que veio para o Brasil com 16 anos e aqui construiu sua vida, casou-se, virou proprietário de restaurante e carioca “de corazón”. Gostava de vinho e de banho de lua à beira do mar. Ele tinha a idade do meu pai.

Quantos Arturos o Brasil não poderia ter salvo com mais tempo de quarentena? Quantos ainda não poderia salvar com sincera preocupação com a doença?

Mas por aqui, há o plano político de minar o já difícil esforço do povo em ficar em casa e acabar logo com a quarentena, para salvar a economia. Infelizmente, desde a Idade Média não há outro método para enfrentar a pandemia do que o isolamento.

Mas nossas principais autoridades se convenceram, baseadas no achismo que as permeia, que “o Brasil não pode parar”.

Não parando, valorizam os cifrões e transformam pessoas como o Seu Arturo e suas histórias de vida em meros CPFs. Estamos nos acostumando a ficar aliviados quando as mortes diárias são passam de mil.

É absurdo pensar que normalizamos esse tipo de coisa.

No fim, estamos perdendo tudo. Vidas e dinheiro. Famílias destroçadas pelo luto, empresários asfixiados pelo calendário.

Porque, quanto mais tempo demora o convencimento de que o isolamento é necessário e inevitável, tudo só piora.

Se apenas for achismo, mais do errada, a estratégia está sendo cruel e irresponsavelmente ceifando vidas às dezenas de milhares. Não há vantagem, não haverá vantagem.

Se, porém, for um método pensado, vivemos um caso horripilante de eugenia. Sim, um crime hediondo contra a humanidade.

Neste domingo, morreram no Brasil, pelos registros do Ministério da Saúde, 653 brasileiros. São 201 a mais do que a covid-19 produziu na Argentina até o momento.

Consciência

Repetindo, em um só dia morreram mais brasileiros do que argentinos em toda a pandemia.

E fica uma pergunta coçando a consciência de quem, como a ex-secretária da Cultura, acha que “pessoas sempre morrem”: e se Seu Arturo tivesse escolhido a Argentina para montar seu restaurante?

Amanhã é terça-feira. O dia mais crítico da semana dos números deste balanço mórbido. E continuamos escalando a montanha de casos e óbitos, no meio das nuvens, sem avistar o pico.

Muitos Arturos, Reginas, Joões, Marias, Rafaéis e Joaquins ainda estão vivos e esperam não ter a mesma má fortuna.

À classe média que se acha elite e protegida por seus planos de saúde, um último lembrete: o colapso do sistema não perdoa classe social alguma. E já nem dá mais para pegar um voo para Miami.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa    #SeSairUseMáscara


COMENTÁRIOS




Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.