Marcelo Brice

Vou me permitir a pretensão de uma reflexão sobre uma polêmica que resolvi alimentar durante uma semana. Explico.

Coloquei um filtro padrão com o texto Pré-candidato a vereador em minha foto de perfil no Facebook.

Por minha ainda curta trajetória, e como sou filho do professor de História Reinaldo Pantaleão – militante ativo da esquerda goiana desde a década de 1960, preso na luta contra a ditadura militar, bastante conhecido, presente na formação de algumas gerações, liderança comunitária, fundador de partido, de sindicato, ex-candidato a prefeito e a outros cargos, lutador pela educação, agitador cultural e comunicador social, fazendo um breve histórico –, talvez esperassem mesmo que eu estivesse “herdando” o exemplo de disputa no pleito eleitoral, parte tão importante para uma geração que foi privada de participação.

Ser “pré-candidato por uma semana” valeu pelo simbolismo. Mas no geral, me senti como de sempre. Interessado em política e cansado de política. É muito legítimo o desejo de participação nos processos políticos institucionais; legítimo, bom e louvável que as pessoas se disponham a tarefa.

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Há os picaretas e os honestos, em todos os espectros políticos – em uns mais, em outros menos, mas em todos. Os oportunistas e os utopistas. Os fraudadores e os lutadores. Os desnecessários e os imprescindíveis.

Entre os picaretas, existem os que só saem candidatos para figurar e assim ampliar a possibilidade eleitoral dos “líderes” ou “caciques”, que organizam as chapas em torno disso.

pre candidato - Como fui pré-candidato a vereador por uma semana
Marcelo Brice e seu filtro irônico no perfil do Facebook | Reprodução

Os picaretas, como os seus donos, querem sempre um ganho nesse grande negócio que é o processo eleitoral, fazem um papel no sistema de perpetuação do jogo e “trocam” sua candidatura pelo carguinho – ou, dependendo do quantitativo de votos, por alguns carguinhos.

Esses, no geral, não fazem bem à vida pública e prefiguram a idiotia, que, em grego, é algo como “aquele que só pensa em si”; logo, para a coletividade ele não serve muito. Business para o atraso!

A democracia representativa sofre há muito de crises de diversas ordens, principalmente por ser organizada de tal modo que a representação não é garantida, os interesses econômicos se sobressaem, as liberdades individuais e o reconhecimento da coletividade, da vida social como um todo, acaba por ficar em segundo plano.

Fica liberada a reprodução de relações sociais e políticas carcomidas e destruídas pela selvageria de uma cultura política estruturada no favor, na subserviência e no aproveitamento/exploração legalizada pelas diversas esferas de poder.

Há também os honestos. Os que são motivados por princípios respeitosos com anseios por alternativas, participam do processo dispostos a intervir positivamente para a sociedade e veem na política um exercício educacional de formação autônoma das relações políticas decisórias, que serve para organizar a vida social e emancipar as pessoas das travas que o processo social, o sistema e a cultura ratificam.

Eu agradeço que estes existam, e me apego neles. Combater o preconceito social – de classe, racial e de gênero – faz parte de pensar a vida e a cidade, o espaço público, de modo mais integrado, inclusivo. Só quem pensa política em sentido amplo, popular e não elitizado merece nosso apoio.

“Herdei”, isso sim, dos meus pais, a dedicação pela educação, pela sala de aula. Minha participação, por ora, é como professor, analista social que intervém no debate sempre que possível. Eu gosto de eleições, não tanto como meu pai, mas gosto. Desde representante de sala até pela direção de campus universitário, concorri.

Mas devo investir meus anos na qualificação do debate que tenho a fazer. Isso pelas razões óbvias – fui formado para isso e acho que faço bem e que posso fazer melhor – e porque o processo eleitoral é muito desgastante, por ser de muito sacrifício pessoal.

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Nossos partidos são péssimos e nossa cultura política funciona por meio da troca de um botijão de gás por voto, o que adoece qualquer alma não prontamente utilitarista. O repetido aprisionamento das pessoas por meio da tutela real dificulta que o sol ilumine a todos, e vivemos há muito sem lampejos.

No campo político em que me encontro há muita improvisação e interesses pouco republicanos, infelizmente, apesar de bandeiras muito justas. Talvez em algum momento, numa eventual Constituinte, eu me interesse e participe de uma eleição, por aspirar um espaço de contribuição efetiva, por ter tempo específico de colaboração e poder ver realizada algumas ideias, coletivas.

Neste momento, apoiarei candidatos progressistas que avalio terem o impacto social necessário. Torço e farei o possível por algumas candidaturas. Que elas prosperem e possam mudar as coisas ruins que estão aí! Assim avançaremos!

Em tempo: obrigado pelas demonstrações sinceras de apoio ou de preocupação! O filtro foi, na verdade, uma “tiração de onda” com as pré-candidaturas; por ser padrão e por ter visto sendo usado só por quem efetivamente não vai ser candidato, gostei pelo gracejo com a profusão de pré-candidaturas.


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Marcelo Brice
doutor em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor efetivo da Universidade Federal do Tocantins (UFT)