Recebi a mensagem no WhatsApp: o Ministério da Educação teria distribuído às escolas uma mensagem contendo uma carta assinada pelo titular da pasta, Ricardo Vélez Rodríguez, solicitando que fosse lida na abertura do ano letivo; após a leitura, que se cantasse o hino nacional com as crianças perfiladas e que isso tudo fosse filmado.

Mais do que isso: que em seguida enviassem o vídeo ao ministério, no tamanho máximo de 25 Mb do arquivo. Encerrava pedindo para enviar o material para endereços eletrônicos do governo.

Como todos sabem desde a recente campanha presidencial, o aplicativo de conversação e as mensagens compartilhadas em seus grupos não são exatamente instrumentos de proliferação da verdade.

Não repassei para frente, mas não demorou para a grande mídia também replicar a íntegra da mensagem, enviada a escolas públicas e particulares:

Prezados Diretores, pedimos que, no primeiro dia da volta às aulas, seja lida a carta que segue em anexo nesta mensagem, de autoria do Ministro da Educação, Professor Ricardo Vélez Rodríguez, para professores, alunos e demais funcionários da escola, com todos perfilados diante da bandeira do Brasil (se houver) e que seja executado o hino nacional.

Solicita-se, por último, que um representante da escola filme (pode ser com celular) trechos curtos da leitura da carta e da execução do hino nacional. E que, em seguida, envie o arquivo de vídeo (em tamanho menor do que 25 MB) com os dados da escola (nome, cidade, número de alunos, de professores e de funcionários) para os seguintes endereços eletrônicos:

[email protected]
[email protected]

E qual é o conteúdo da carta anexada na mensagem? Fala aí, ministro:

mensagem ministro velez 501x300 - Com slogan de campanha em mensagem oficial, ministro da Educação dá início ao projeto "Escola do Meu Partido"

 

O slogan da campanha de Jair Bolsonaro no final da carta ressalta uma novidade que o governo tenta emplacar: o projeto Escola Sem Partido já é coisa do passado; a moda agora é… Escola do Meu Partido!

É “sem comentários” o grave episódio de inserir um mote eleitoral em um documento oficial de governo. Quem conhece um pouquinho só de Constituição sabe que isso fere o princípio da impessoalidade e pode ser enquadrado facilmente no crime de improbidade administrativa.

Isso já foi exposto fartamente nos veículos da imprensa que divulgaram e comentaram, desde as primeiras horas, mais essa bizarrice de um ministro que acha que universidade pública tem mesmo de ser para uma elite e que considera o brasileiro do exterior algo como um trombadinha.

O que realmente importa é entender que nem o regime militar de fato – aquele que se impôs de 1964 a 1985 – ousou levar a tal ponto sua própria ideologia à educação e causar tanto constrangimento a diretores, professores, pais e crianças.

Apesar de ser uma fórmula muito superficial de demonstrar patriotismo, não há nada de mal em cantar o hino nacional nas escolas. Aliás é algo determinado por lei federal de 2009. Em tempo: naquele ano, o PT governava e Fernando Haddad era o ministro da Educação.

O problema é o absurdo de recomendar a filmagem dos alunos, algo proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e no meio disso ainda fazer propaganda do governante e não do governo. A coisa é tão grave e sem noção que até o movimento Escola Sem Partido protestou.

Este não é um governo que quer “tirar o viés ideológico” das escolas; pelo contrário, a lunática carta de Vélez Rodríguez faz crer que o viés ideológico está em alta, ironicamente, mais do que nunca antes na história deste País.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.