Não, a culpa não é do VAR. Assim como, em outra polêmica atual, a culpa não é da arma de fogo.

Ambos são apenas instrumentos facilitadores para a consecução dos atos a que se destinam, um no âmbito do futebol, outro no da segurança.

Em um cenário onde despreparados têm acesso a eles, os danos se potencializam.

O que ocorreu nesta quarta-feira no Serra Dourada mostra como os instrumentos podem ser e são usados a serviço dos interesses. Repito: o VAR “máquina” não tem culpa alguma; mas, e quem opera o VAR, serve a quais interesses?

O Goiás vira o placar jogando bola em uma partida na qual havia começado muito mal. Passa a ter o domínio do jogo até seu principal nome (e autor de um golaço) ser expulso sem ter nem mesmo recebido cartão amarelo.

Uma falta imprudente de Michael, mas na qual ele atinge o adversário sem maldade, ao buscar a bola como objetivo. Mas, na interpretação do árbitro, o caso foi de vermelho direto. Ok.

Pausa para a primeira dúvida: se fosse ao contrário, com os paulistas já perdendo, o árbitro expulsaria o jogador corintiano? E, se isso ocorresse, o VAR “deixaria passar” sem propor nenhuma revisão?

Segue o jogo. No fim dele, já aos 44 do segundo tempo, a bola chega meio torta para Fágner, que dá uma leve – embora clara – ajeitada com o braço.

O jogo segue. E não é que a bola, ali logo depois, se debate dentro da área até encontrar o braço do esmeraldino Dudu? Veja bem: aqui não é o braço que busca a bola, pelo contrário, ele até tenta se esquivar dela, mas não tem tempo, pois o lance é rápido.

Não é o VAR que se aciona, sozinho. São os homens (e seus interesses) que acionam o VAR. E lá foram eles achar novamente pelo em ovo, ou o chifre na cabeça do cavalo. Acharam.

Mas, peraí: se é para procurar as minúcias, por que não verificaram o bracinho maroto do garoto Fágner lá no começo da mesma jogada? Afinal, não foi assim, pegando a trombada da bola no braço de Marlone, que tiraram o gol de Michael lá no Rio, contra o moribundo Botafogo? Seria o empate e a história daquela partida seria com certeza outra, assim como o placar.

Enfim, por que, em lances similares, num jogo os homens do VAR procuraram com lupa e noutro fecharam os dois olhos no outro? Interesses, meu caro Watson, como dizia o detetive.

Claro, marcações que envolvam interpretação sempre vão gerar polêmica.

Só que o VAR está presente em todas as grandes ligas europeias e tem sido um facilitador para dirimir as dúvidas. Lá, a atuação dos homens da cabine costuma ser bem discreta. Intervêm pouquíssimo, se comparado ao que ocorre no Brasil. O protagonismo é de quem está no campo. Na Inglaterra, onde foi implantado só há dois meses, o árbitro principal continua soberano.

Aqui, pelo contrário, os caras da cabine atuam para mudar a decisão de quem está no gramado. Parecem concorrentes, não colaboradores. E quem está no gramado não tem preparo nem personalidade suficiente para sustentar seu próprio julgamento, mesmo quando a imagem mostrada é inconclusiva. Foi assim também com o Flamengo diante do Athletico Paranaense, domingo passado.

Mas são várias e várias as lambanças, rodada após rodada: Anderson Daronco mostrou que é mais forte de corpo que de mente, na 23ª rodada, marcando um pênalti absurdo a favor do CSA no confronto vital com o Avaí, por conta do VAR; um dia antes, outra interferência da cabine havia favorecido o Cruzeiro diante do Internacional: o volante ex-Goiás Patrick recebeu o contato de Orejuela ao dar combate dentro da área, mas, ao ver o VAR, o árbitro se assegurou que a falta tinha sido do colorado.

Ah, o árbitro? Era o mesmo Wagner do Nascimento Magalhães que no Serra deu o pênalti ao Corinthians. Despreparadíssimo!

Nada ocorreria se a turma da cabine do VAR fosse criteriosa. Não é, porque há mais vaidade que apego ao critério. Ao chamar o árbitro para averiguação, o que acabou se estabelecendo aqui no Brasil é a coação de quem apita.

Por que não ocorre o mesmo em outros países? Porque nossos apitadores são muito mais despreparados! Tanto os de campo como os de cabine. A tecnologia por aqui até agora só agravou os problemas tradicionais que envolvem a rede de poderes do futebol que penaliza os mais fracos e/ou escancara a vaidade de quem a comanda.

VARgonha nacional.

LINCOLNEANAS

 * * * * *  Um argumento usado para justificar o lance do pênalti tem sido o de que a bola também bateu na mão de Yago Felipe, no início da jogada do segundo gol, de Leandro Barcia. Foi isto mesmo: a bola bateu na mão – lance involuntário, e no campo de defesa. Já Fágner leva o braço de encontro à bola, como várias postagens nas redes sociais deixam claro.

 * * * * *  Quase 20 mil no Serra Dourada, mas foi um público aquém do esperado. Na relação custo-benefício, porém, chegar aos quase 10 mil associados ao Sou Verdão vai fazer a média dos “jogos comuns” do Goiás subirem de agora em diante.

 * * * * *  O mais grave não foi perder Michael por um cartão vermelho. Isso é ruim, mas pior é saber que ele continua pendurado com dois amarelos..

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.