O “Fla-Flu” estadunidense em torno de Trump muitas vezes confunde os analistas brasileiros, que se precipitam a equacionar a situação de lá com a de cá. Nada mais falso

por Marcelo Rizzo*

Vamos falar de Jair Bolsonaro aqui, sim. Mas, antes, vamos voltar alguns anos e relembrar a história de outro país. O ano era 1963. Assim que soube do assassinato de Kennedy, Richard Nixon ligou para J. Edgar Hoover, diretor do FBI, e perguntou de uma vez:

— O que aconteceu? Foi um dos malucos da direita?

Esse não era um sentimento isolado do futuro presidente dos EUA. O sentimento geral, no dia do assassinato, era de que os birchers tinham ido longe demais.

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“Procurado por traição”: dizeres de cartaz com a foto do então presidente dos EUA John Kennedy, espalhado por Dallas (Texas) poucos dias antes de ele ser assassinado, naquela cidade

Birchers eram os membros da John Birch Society, um grupo conservador que nasceu em 1958 defendendo um governo mínimo e esposando um anticomunismo visceral. Um de seus alvos foi nada menos do que o general Dwight Eisenhower, presidente republicano – veja bem, republicano – no período da fundação do grupo. Se políticos conservadores “mainstream” como Nixon os identificavam como “malucos da direita”, em 1964 surgiria um candidato que tomaria de assalto o Partido Republicano: Barry Goldwater.

A campanha de Goldwater é identificada pela maioria dos historiadores norte-americanos sobre o período como o ponto de virada da direita americana. Da defesa do uso de armas nucleares ao não repúdio do racismo nas leis dos estados sulistas, a campanha do político do Arizona causou uma transformação permanente no cenário do país. Goldwater recusava-se a condenar os birchers, como diversos republicanos sempre o fizeram – dizia que não podia “controlar quem o apoiava”.

Só que os birchers e os diversos grupos de direita que passaram a surgir naquele período não eram laterais à sua campanha para presidente. Pelo contrário, a capacidade de Goldwater em ser nomeado para candidato à presidência estava intimamente conectada ao surgimento de uma direita organizada que passara a invadir as convenções republicanas.

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Diretamente dos anos 60 dos EUA, Barry Goldwater é a imagem perfeita para entender o Brasil da atualidade

Goldwater era um símbolo da emergência dessa direita organizada e um sinal ainda maior de que a era do consenso tinha chegado ao fim.

Se alguém quiser medir o tamanho da transformação política nos EUA do período, basta dizer que, até aquele momento, os estados sulistas eram bastiões democratas, locais que os republicanos se consideravam derrotados de antemão em suas disputas por votos. Goldwater foi o primeiro republicano a ganhar os votos eleitorais dos Estados do chamado “Deep South” (Louisiana, Geórgia, Alabama, Mississippi e Carolina do Sul) desde a Era da Reconstrução (1865-1877).

Mas qual a importância de remeter a esse período da história americana? É o quanto ele lembra nossa conjuntura no Brasil. O atual “Fla-Flu” estadunidense muitas vezes confunde os analistas brasileiros, que se precipitam a equacionar a situação de lá com a de cá. Nada mais falso. Estamos muito mais próximos, na verdade, das disputas de décadas atrás daquele país.

Como aqui, a direita nascera organizada nos EUA dos anos 60 no seio da classe média. Essa é uma parte importante da derrota de Goldwater, que Nixon – um dos políticos mais pragmáticos da história – soubera absorver. O liberalismo econômico alegado por ela naquele momento servia como uma luva. O discurso meritocrático permitia que os que estavam confortáveis em suas posições advogassem a retirada da presença do Estado no suporte daquilo que tanto temiam: a ascensão dos negros.

A base eleitoral de Bolsonaro se parece mais com a de Goldwater do que com a de Donald Trump. O atual presidente dos EUA ganhou o voto das classes mais baixas ao explorar os medos econômicos: a desindustrialização, a migração dos empregos para outros países e o imigrante como um ladrão de postos de trabalho. Entender a vitória do republicano como resultado apenas do preconceito e de fake news é miopia de grupos que não querem enxergar muito a fundo seus próprios privilégios. Trump é resultado do fracasso das políticas neoliberais das últimas décadas naquele país, não seu triunfo.

Quando a comentarista política de extrema-direita Ann Coultier disse em um programa de TV, em 2015, que o mais provável pré-candidato republicano a ganhar a eleição era Trump, a audiência caiu na gargalhada. Mais interessante ainda é que ela previu que Bernie Sanders seria um candidato com mais chances na disputa do que Hillary Clinton. Ridicularizada novamente – e, hoje, isto se tornou uma avaliação comum entre os analistas. Em que pese a vitória da candidata democrata no voto popular, Coultier baseou sua análise na profunda insatisfação das classes mais baixas dos EUA: só um candidato que tocasse nas “mazelas subterrâneas” teria chances. Claro que a financeirização da política mundial fez com que o atual presidente logo fosse enquadrado pelo mercado e desse um cavalo de pau em seu populismo econômico, mas a retórica continua a mesma.

Não é o que se enxerga com o “fenomêno Bolsonaro”. Se a ascensão da direita é algo amplamente visível pelo mundo, ela toma diversas formas e não pode ser compreendida sem entender as especificidades de cada país. Bolsonaro não é fruto da decadência econômica, não nasceu da frustração econômica. Não é o medo da decadência nacional que o impeliu a seu novo status.

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Parece, mas não é: não é a Trump que Bolsonaro se assemelha, mas a Goldwater

Bolsonaro é o nosso Goldwater. Não nosso George Wallace [governador do Alabama por três vezes e que ficou famoso pela frase “Segregação (racial) agora e segregação sempre”], nem nosso Trump. Nasce junto com a meritocracia da classe média. Nasce do sucesso dela e não de seu fracasso.

Quando se faz piada sobre sua falta de conhecimento econômico, não se compreende que ele sempre foi um preconceito a ser preenchido. O racismo, o machismo, a homofobia são características marcantes de nossa sociedade. Encontram-se bolsonaros em todos os cantos do Brasil. É a conexão entre meritocracia/livre mercado e esses preconceitos a grande novidade. Focar nas anedotas que só um ignorante concorrendo à Presidência pode render é deixar de lado as forças em ascensão que ele representa. Bolsonaro é a denúncia do “mimimi”, do vitimismo. Não é o preconceito do escravista. O “mimimi” é a retórica do mérito. Do sucesso branco como vitória da vontade. Ele só pode ser entendido como refiguração dos preconceitos seculares pelo liberalismo econômico.

Quando se brinca com as “bobagens da direita brasileira”, ridicularizando o seu conservadorismo nos costumes e liberalismo na economia, não se compreende que essa combinação tem uma tradição enorme na ascensão da direita americana. Nasce nos anos 50 sob o termo “fusionismo” e é peça central das guerras culturais dos anos 60. O medo do vizinho preto tornava-se racional. A liberdade de discriminar era peça fundamental do sucesso econômico do país. Bolsonaro representa essa liberdade aqui no Brasil.

Goldwater perdeu de lavada aquela eleição. Mas venceu no longo prazo. A direita se consolidou e em 2016, sua rede extensa nos EUA permitiu não só a vitória de Trump, mas a defesa de uma presidência ruinosa e uma grande influência nos rumos de seu governo. Bolsonaro perderá. Isso é o que menos importa.

* Marcelo Rizzo, professor e historiador, é doutorando em História Econômica pela Universidade Federal de Goiás.

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