Texto 11 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Fabiana Scoleso

No atual metabolismo antissocial do capital em que se vincula o Estado brasileiro, há uma simbiose entre capitalismo destrutivo, a letalidade do covid-19 e a figura grotesca à frente da Presidência da República que é Jair Messias Bolsonaro.

A resposta dos movimentos sociais a isso precisa ser visceral, nada que chegue perto de velhas ou novas conciliações. A hegemonia do capital financeiro continua fazendo fortuna. Dentre as 10 pessoas mais ricas do mundo estão Jeff Bezos, Bill Gates, Warren Buffett, acionistas de empresas como Amazon, Microsoft, Berkshire Hathaway e Oracle, todas elas ligadas à tecnologia e também importantes no jogo financista da Bolsa de Valores.

Não é de surpreender ninguém que mesmo em tempos de pandemia essas empresas tenham seus lucros potencializados com a economia de plataforma e pelo uso intensivo de todo tipo de recurso digital para promover a educação e outros setores.

Todos os governos do mundo, com raras exceções, são dependentes do capital financeiro, seja ele nacional ou internacional, sendo o transnacionalismo o fio condutor e subordinador destas novas relações jurídicas e econômicas.

A classe capitalista transnacional (CCT), com seu alto volume de investimentos, aponta as regras da integração e expansão da economia global, pressiona governos e empreende nos seus territórios de interesse a sociabilidade do capital.

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O pós-Segunda Guerra movimentou-se para a consolidação de uma nova rede de relações econômicas globais de cariz neoliberal e contou com a adição de novos organismos internacionais e instituições supranacionais com suas ações e operações estratégicas.

O metabolismo antissocial do capital, como destaca Ricardo Antunes em suas recentes falas, estava sendo forjado e precisava também adotar uma nova “guerra ideológica” colocando o socialismo como um entrave ao desenvolvimento e reforçando que sindicalismo era uma barreira e um inimigo das corporações. Aliás, como foi o caso de Hayek na década de 1970 e renovado, posteriormente, pelo economista e um dos ideólogos do governo Reagan nos EUA, Francis Fukuyama, que decretou, em seu livro, “o fim da história” e o triunfo do capitalismo nessa disputa, deixando para trás o socialismo e o comunismo com a derrocada da União Soviética.

Princípios revitalizados, atualizados na era da globalização: novos interesses, reestruturações, nova divisão internacional do trabalho, novas tecnologias e formas de gestão da produção, novos organismos internacionais, em especial a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, e por fim a mundialização das finanças para o funcionamento da economia mundial, como apontado por François Chesnais.

Entre reformas, austeridades e sucessivas crises, rompemos o século 20, mas não rompemos com suas heranças e estruturas de dominação. As questões climáticas passaram a ser destaque nos grandes encontros internacionais, dada a capacidade destrutiva do agronegócio e dos novos projetos de mineração, a ofensiva neoextrativista e das commodities, especialmente na América Latina.

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Pandemia escancarou a destruição do sistema universal de saúde pública e a incapacidade de resposta eficiente aos problemas sociais | Reprodução

A pandemia que ora vivenciamos é resultado do implacável avanço do capital destrutivo. Além disso, ela escancarou em diversas partes do mundo a destruição do sistema universal de saúde pública e a incapacidade de os Estados-Nação darem uma resposta rápida e eficiente a todos os problemas sociais e econômicos decorrentes da pandemia.

Os EUA por exemplo, país que sempre ostentou sua posição hegemônica, tem convivido com números alarmantes de infectados e mortos por todo seu território. O pesadelo norte-americano em tempos de pandemia é saber que não há possibilidade real de fazer testes rápidos e que não há um sistema público capaz de atender os mais vulneráveis. Hoje os EUA registraram a marca de mais de 142 mil mortos. Já morreu mais gente do que nos ataques às Torres Gêmeas e na Guerra do Vietnã.

Bolsonaro, pelo lucro e contra a vida

No Brasil, impossível podermos mensurar o grau do problema ainda que todos nós saibamos que é enorme. Há um esforço para contabilizar o número de infectados e mortes por parte das agências de jornalismo, porque os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde não são confiáveis.

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Bolsonaro e a propaganda irresponsável da comprovadamente ineficaz cloroquina | Reprodução

O maior inimigo mesmo é o presidente, que ocupa a lógica da irracionalidade, do caos e que também não deixa de ser expressão dos sombrios tempos da ditadura militar que falsificava números, escondia corpos e subnotificava. Tendo sido diagnosticado recentemente com covid-19, ele não respeitou nenhuma das recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) ou de qualquer especialista da área sobre a importância do distanciamento social, uso de máscara e sobre a ineficácia da hidroxicloroquina.

Nesse último caso, pelo contrário, ele insiste em propagandear o medicamento, apesar da ineficácia já comprovada pelas maiores autoridades em saúde do mundo. Aliás, desde o início, se colocou contra a OMS passando a descredibilizar suas ações, assim como Donald Trump nos EUA.

Para Bolsonaro, não há nada de novo: é apenas uma gripezinha que se cura com um “e daí?”. Bolsonaro age abertamente em favor do lucro em detrimento da vida. Para ele e seus apoiadores, o sistema movido pelo capital é a máquina que não pode parar.

Tentam desmoralizar a ciência e qualquer veículo de informação jornalística que não atenda a suas expectativas de promoção e operação desenfreada da economia e do retorno ao trabalho.

“É preciso lembrar sempre que o capitalismo é desigual e articulado e que a democracia, no seio dos seus vários dilemas, é imagem, semelhança e expressão da burguesia”

Trabalhadoras e trabalhadores são constantemente pressionados e forçados a retornar a suas atividades sob o preço de perderem seus empregos. Aglomeram-se em plataformas de trens, metrôs e pontos de ônibus enquanto homens e mulheres “de bem” fazem carreatas pedindo o fim da quarentena, se reúnem nas calçadas chiques do Leblon, ou vociferam palavras de ordem e de apoio ao “mito” nas redes sociais enquanto mulheres e homens simples se arriscam para servir os filhos da burguesia e manter seus negócios ativos. Ainda que esse tipo de comportamento esteja presente em todo o tecido social, é na classe média e na alta burguesia que são manifestados todo tipo de desprezo e descaso.

De fato, a democracia burguesa é bastante curiosa. É permeada pelos privilégios de classe, de raça e gênero que blindam alguns indivíduos das enormes adversidades que a classe trabalhadora enfrenta histórica e cotidianamente. É preciso lembrar sempre que o capitalismo é desigual e articulado e que a democracia, no seio dos seus vários dilemas, é imagem, semelhança e expressão da burguesia.

O conjunto das lutas sociais, mesmo nas suas diferenças, se encontra na luta pela vida. Não dá pra ficar batendo panela e cantando música na janela. É preciso estratégia e formas políticas e organizacionais, como têm feito inúmeros movimentos que vêm atuando nas periferias das cidades e acolhendo famílias onde o poder público deveria estar, mas falha sempre.

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É preciso práxis, articulação e enfrentar as tecnopolíticas das fake news com a tecnopolítica do trabalho em rede dos movimentos sociais. É preciso também dominar as ferramentas digitais sem abdicar das ruas, embora o contexto não nos permita ocupá-las imediatamente. Precisamos avançar para além do legalismo, da conciliação e do politicismo.

As esquerdas precisam, de fato, construir alternativas radicais e expressões de solidariedade efetivas, além de se sobrepor a todos os interesses econômicos imediatos: a vida em primeiro lugar! A classe trabalhadora entra definitivamente no processo decisório e não podemos perder o bonde da história. A roda não pode girar mais uma vez para trás.

Neste sábado, 18/7, o Brasil contabiliza 2.075.246 casos confirmados e 78.817 mortes. Quanto mais e até quando?


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Fabiana Scoleso
graduada em Ciências Sociais pelo Centro Universitário São Camilo, mestre e doutora em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e docente do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Tocantins (UFT)