Para quem já está comprando a pipoca para estourar durante a entrevista, é bom alertar: há uma tendência de que o candidato do PSL seja “preservado”

Bolsonaro fará nesta segunda-feira, 30, a entrevista de maior audiência nos últimos tempos do decadente “Roda Viva” (quem te viu, quem te vê), da TV Cultura, do governo de São Paulo.

O presidenciável do PSL e o tucano Geraldo Alckmin foram os últimos entre os postulantes ao Palácio do Planalto a confirmar presença no debate. Semana passada, o ex-governador paulista esteve por lá e teve vida tranquila: em alguns momentos os entrevistadores se comportaram como assessores ou mesmo admiradores do “sabatinado”. Nada fora do esperado, tendo em vista o contexto, a emissora e os interesses envolvidos.

bolsomito - Bolsonaro no "Roda Viva": por que o "mito" pode se sair melhor do que o esperado
Jair Bolsonaro é o entrevistado do programa “Roda Viva” | Antonio Milena / Veja

Nesta noite, porém, o capitão da reserva do Exército pode se preparar atrás da trincheira, porque virá muita munição contrária. Deverá ser bombardeado com tópicos tais como: sua pouca aptidão para falar de economia; sua ligação estreita com os militares; sua defesa da ditadura e de seus representantes mais repugnantes; suas “escorregadelas” éticas (auxílio-moradia, doação da JBS via partido, emprego de familiares no gabinete, punição do Exército por desobediência etc.); sua visão sobre gênero e racismo; e, claro, sua paixão pelo armamento da população.

Haja vista a composição autoritária do entrevistado, a temperatura pode subir no decorrer do programa. Bolsonaro vai falar pouco ou nada sobre seu plano de governo e deve dizer que ainda não está na hora de divulgá-lo. Também vai se enrolar nas respostas mais complexas e – estratagema inteligente de sua parte – deve mudar o foco, com artifícios como atacar a esquerda mesmo quando não há nada de partidário ou ideológico na pergunta a ser respondida.

Para quem já está comprando a pipoca para estourar durante a entrevista, porém, é bom alertar: apesar desse pretenso bombardeio, há uma tendência de que ele se saia melhor do que o esperado. É que, na verdade, não interessa muito ao stablishment uma queda de Bolsonaro nas intenções de voto. Pelo menos, não no momento. A ideia do “mercado” – e a grande mídia depende dele, bem como os empregos de seus jornalistas – é de que o candidato mais adequado chegue ao segundo turno nas melhores condições possíveis de vitória.

Não há candidato mais adequado ao mercado que Geraldo Alckmin. Só que, ao contrário de Bolsonaro e de Lula, representantes de polos opostos do cenário ideológico, o nome do PSDB patina nas pesquisas. Daí sua entrega total ao Centrão para garantir tempo eleitoral na TV e suporte de estrutura para a campanha nos Estados. Falta combinar com a população, é verdade, mas o tucano ganhou um horizonte viável para sua ambição presidencial.

Repetindo, para que ninguém se engane: a grande mídia tem partido e seus interesses econômicos e políticos. Pensam que o militar seja mais fácil de ser abatido no segundo turno do que outro candidato, principalmente pelo quesito rejeição. Portanto, se Bolsonaro for menos atacado do que se espera, não será por falta de vontade, ou por mera gentileza com o convidado. Melhor ter como adversário alguém com discurso radical e populista, que transforme o duelo em uma questão plebiscitária, do que enfrentar o representante de um conjunto de ideias mais consistentes e complexas.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.