Os repórteres se prenderam demais ao passado e quando tentaram conhecer as propostas fracassaram: não havia o que extrair além de retornos e obviedades

O aguardado Roda Viva desta segunda-feira, 30, só confirmou o que já se imaginava: Jair Bolsonaro é alguém impossível de ser entrevistado. Extrair uma declaração sua sobre algo que seja um pouco mais elaborado é como tentar ficar em cima de um cavalo de rodeio por oito segundos… depois de beber a noite inteira.

Há vários políticos que se utilizam de uma boa retórica para escapar de um tema espinhoso e mudar o foco da questão. Mas o “mito” faz isso de forma tão abrupta que torna obrigatório o repórter alertar que a pergunta não está sendo respondida. O deputado contesta, é contestado, contesta novamente e o que era entrevista vai virando rapidamente uma discussão de boteco ou aquela confusão entre parentes na confraternização de fim de semana.

bolsonaro roda viva 2 451x300 - Bolsonaro no "Roda Viva": o dia em que os jornalistas entrevistaram o tiozão do churrasco
Jair Bolsonaro no “Roda Viva”: obviedades e simplismos que agradaram ao perfil de seus eleitores | Reprodução

É bem verdade que a bancada de entrevistadores do programa não foi das mais brilhantes. Priorizaram apertar o pré-candidato pelo passado bizarro que ele possui – algo que realmente precisa ser pontuado, haja vista o que ele ainda “acha” do assassinato de Wladimir Herzog -, mas muitas vezes se esqueceram de que aquele senhor é o líder das pesquisas quando fica fora o nome do ex-presidente Lula (PT), condenado e preso.

É bem verdade também que os repórteres tentaram conhecer as propostas de Bolsonaro para seu eventual governo. Fracassaram: não havia o que extrair além de retornos e obviedades que qualquer pessoa que consiga, por exemplo, ler este texto poderia fazer, a maioria de forma bem mais elaborada.

Bolsonaro é “mito” por ser o rei do senso comum. É aquele cara que da boca pra fora resolve tudo. E, como o Brasil está cheio de problemas, no meio de uma crise e entupido de desesperança com os políticos, há cada vez mais quem acredite mesmo e o separe dos demais, como se ele não estivesse nesse meio há três décadas(!). Se não se deixa levar mais pelo canto da sereia do restante, está pronto e disposto a se inebriar com o cheiro da picanha que exala do tiozão do churrasco.

A entrevista escancarou o motivo de tanto sucesso popular: Bolsonaro está aqui, ali e em qualquer lugar. Uma imensa parcela da população se identifica com o combo que ele apresenta: as piadinhas, os exageros, os preconceitos, tudo o que está no senso comum daquela resenha no quintal ou na laje. Bolsonaro é definitivamente o tiozão do churrasco vestido de terno e gravata.

Perguntado sobre como resolver o problema do desemprego no campo? “Essas pessoas têm de ser treinadas para fazer outra coisa”. Como reduzir a mortalidade infantil? “O problema é ter muito bebê prematuro”. Combate ao tráfico? “Se isolar os bandidos em um local, aí é guerra”. Como tratar os refugiados? “Na tua casa você não deixa qualquer um entrar nela, porque tem de deixar entrar no Brasil?”. É simplismo atrás de simplismo, mas é isso que um grande contingente de eleitores hoje quer na Presidência.

Foi em Goiânia, em conversa gravada ao repórter Frederico Oliveira, na época no Jornal Opção, que Jair Bolsonaro disse os refugiados (sírios) eram “a escória do mundo”. Em outra visita mais recente, ao chegar ao prédio em que concederia uma entrevista a uma rádio, encontrou uma jovem com algumas tatuagens no corpo. Parou e, conversando com outras pessoas, comentou ao observá-la: “Que moça bonita, pena que estragou-se toda com tanta tatuagem”. A jovem respondeu: “Ah deputado, como sempre o senhor dando opinião sem ser solicitado!”.

Será ou não o modelo perfeito do tiozão do churrasco na cadeira de presidente? Nada que decepcione seus apoiadores. Era isso mesmo que eles esperavam: está cada vez mais claro que aquele senhor, de fato, os representa. No fim, dar razão a Bolsonaro é dar razão a algo forte dentro de cada um. E ninguém deixa de votar em si mesmo.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.