Texto 2 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto 1)

Marcelo Rizzo

Uma das tendências entre as análises do nosso governo disfuncional e sua capacidade de se manter no poder apesar de todas as suas ações funestas é recorrer aos estudos da personalidade autoritária, célebres no pós-Segunda Guerra por sua tentativa de explicar a ascensão dos totalitarismos a partir do diagnóstico de psiquê coletiva que se vê refletida no líder totalitário.

Assim, uma série de respostas a testes indicariam a propensão de um sujeito à violência política: desde sua relação com os costumes até em como entende a relação sexual. Os testes teriam a capacidade de revelar as tendências patológicas ocultas que levam o sujeito a apoiar o fascismo. Estudos Sobre a Personalidade Autoritária, de Theodor Adorno, é o mais conhecido – os textos de base freudiana se tornaram uma arma na América contra opositores políticos nos anos 50.

fact goldwater 300x180 - Bolsonaro é fruto da esperança, não do ódio (eles é quem estão nos avisando)
Da revista Fact: 1.189 psiquiatras dizendo que o republicano Barry Goldwater era inapto psicologicamente para ser presidente | Reprodução

Mas não é só no entendimento do autoritarismo que a psicologia passou a interferir na análise política: a Associação Psiquiátrica Americana inseriu em seu ordenamento uma norma chamada de “regra Goldwater”. Por ela, a associação estabelece que é antiético psiquiatras darem opinião profissional sobre personalidades públicas que não examinaram pessoalmente.

O nome da regra deriva de um artigo da revista Fact que, em 1964, estabelecia que o candidato republicano à Presidência não era apto psicologicamente para exercer o cargo.

Tornou-se comum em nosso momento atual estabelecer Jair Bolsonaro como representante maior de uma patologia social nacional. A personalidade autoritária seria ubíqua na nossa sociedade e nosso presidente apenas o seu sintoma.

O diagnóstico da sociedade brasileira como autoritária não é novo e tampouco um choque. O que esperar de uma nação cuja história tem a escravidão como essência?

O autoritarismo nacional não depende necessária e exclusivamente de respostas individuais a um teste estandardizado de escala F [o teste psicológico criado por Adorno para medir personalidade autoritária]: o sujeito pode ser avesso às convenções, pacífico e extremamente liberal em relação ao sexo e, mesmo assim, reproduzir os vícios autoritários em relação à classe, etnia ou gênero.

O núcleo do “homem cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda é ser afável no trato, na aparência, não na sua essência. Nosso autoritarismo herdado passa na escala F sem pestanejar.

Bolsonaro não é o reflexo desse autoritarismo, vários governantes passados o são. O atual presidente é resultado de um fracasso daqueles que o querem diagnosticar como patológico: os tecnocratas.

Não é por acaso que passam a surgir diversos balões de ensaio sobre o parlamentarismo ao mesmo tempo que somos inundados com artigos sobre as reformas políticas necessárias para impedir a ascensão de um outro Jair. Temos partidos demais? Como tolher órgãos noticiosos não credenciados de se proliferarem? Primárias verdadeiras nos partidos criariam adversários à altura de Bolsonaro?

Ou seja, como adaptar o sistema eleitoral de forma que ele não nos forneça um autoritário como vencedor? O problema passa a ser o excesso de democracia. Porque, sim, graças à internet, a eleição de Bolsonaro resultou de uma eleição muito menos mediada pelos órgãos da tecnocracia do que os pleitos anteriores.

O leitor vai se exasperar no momento: “e as fake news?”. Sim, elas foram importantes, mas como Hillary não perdeu por causa dos russos em 2016 e Marina não perdeu por causa de uma propaganda sobre o Banco Central em 2014, o PT também não perdeu por causa das fake news em 2018.

“Bolsonaro é fruto da opinião popular e suas distorções diárias.
A novidade está em como elas passaram para as urnas de forma não mediada e não nas falsidades. A falha é a democracia”

Ou melhor, como mostram os estudos sobre o funcionamento delas, o viés de confirmação é parte central de sua eficácia: a fake news só é aceita quando ela confirma o pré-julgamento. Você conhece algum petista que votou no Bolsonaro por causa de fake news? Ou um bolsonarista que acreditou que a facada era falsa?

Há a tese de que a corrupção do PT foi tão grande que ela enlouqueceu as pessoas. O PT teria roubado tanto que teria tornado pessoas pacíficas em malucos violentos. Não parece uma tese muito factível já que a cidade e/ou o Estado que foi governado por gente como Paulo Maluf, Orestes Quércia e Celso Pitta não tenha apresentado nenhum ódio coletivo até tempos recentes.

Bolsonaro é fruto da opinião popular e suas distorções diárias. A novidade está em como elas passaram para as urnas de forma não mediada e não nas falsidades. A falha é a democracia.

Quando “bandido bom é bandido morto”
virou “político bom é político preso”

O que levou as pessoas a acreditarem nas fake news que beneficiaram a candidatura bolsonarista foi a falência do discurso tecnocrático quando ele caiu em sua própria armadilha. Afinal, o antipetismo serve para explicar o fracasso do PT, mas o PT perdeu outras vezes sem que personagens como Bolsonaro emergissem.

A questão é que antes do uso da Escala F como argumento para reformas que reduzam o poder do voto popular no Brasil, foi utilizada a escala C (C de corrupção). Assim, o brasileiro não era naturalmente fascista, mas corrupto.

O patrimonialismo que os tecnocratas dizem estar na alma nacional distorcera a democracia e, se era necessário curvar a lei, já que ela era fruto dos representantes patrimonialistas, que assim o fosse. Bandido bom é bandido morto passou a significar “político bom é político preso”.

No plano ideal, sobrariam os tecnocratas para gerir a política. Só que um grampo surgiu nesse caminho e o representante político da tecnocracia apareceu no Jornal Nacional recebendo dinheiro sujo e comentando sobre matar o primo. O eleitor que passou dois anos tirando onda de que a culpa não era dele, agora era humilhado em praça pública. Suas centenas de posts em redes sociais defendendo Aécio Neves estavam lá para todos verem. De defensor da honestidade, ele virou meme. O PSDB virou “petista” e com ele, toda a política.

Jair e sua retórica tosca eram tudo que PT e PSDB e outros partidos tradicionais não eram. Bolsonaro é fruto da esperança, não do ódio. A esperança de que os tecnocratas, alheios às aspirações do povo, fossem derrotados e expulsos para sempre.

O que parece ignorância é o julgamento do “homem cordial”: a polidez que disfarça os vícios. Que se jogue a polidez fora e que a violência surja como expurgadora do que ela esconde. Isso é esperança, não é ódio.

bolsonaro banana 300x167 - Bolsonaro é fruto da esperança, não do ódio (eles é quem estão nos avisando)
No cercadinho de apoiadores e imprensa,, Bolsonaro manda “banana” aos jornalistas | Reprodução

É por isso que ela, a esperança, não se desvencilha de seu representante mesmo quando ele mostra sua face racista, xenófoba, misógina e homofóbica.

Existe um núcleo que se vê representado nisso? É claro. Mas para a grande maioria, ele simplesmente desnuda a polidez. É por isso que quando o presidente é acusado de preconceito, a defesa não se dá pelo apoio ao preconceito, mas apontando como outros personagens fizeram ou disseram coisas parecidas no passado, só que de forma mais polida.

Enquanto a tecnocracia, de direita e de esquerda, insistir no retorno à polidez como antídoto, Bolsonaro não terá o que temer. Classificar o bolsonarismo como patológico, recorrer a um suposto caráter autoritário latente nos indivíduos, nada mais é do que uma tentativa de reabilitação do sistema rejeitado pela maioria.

Transfere a necessidade de engajamento com a população para a urgência na criação de mecanismos que controlem a “massa autoritária”. Assim, os petistas e “centristas” se encontram na defesa da velha política em contraposição à nova política miliciana e estão cheios de si enunciando o famigerado “eu avisei”.

Parece prematuro. A população dá sinais de que a velha política, a política da polidez, não é mais suficiente. Eles é quem estão nos avisando. Recuperar a democracia sem desaguar no autoritarismo não é buscar formas de obstruir a opinião pública, mas conquistá-la a partir do reconhecimento dos erros e se colocar contra a velha política polida.

A autocrítica de todo o sistema é necessária. Incluindo todos os seus participantes.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa    #SeSairUseMáscara


COMENTÁRIOS




Marcelo Rizzo
historiador e doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG)