Texto 3 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Ulisses do Valle

Ao abrir essa estimulante oportunidade de diálogo e reflexão, proposta pelo Estádio das Coisas, Marcelo Brice fez um chamado ao qual gostaria de fazer coro. Fazer coro, só, não. Exagerar.

No intuito de esboçar uma compreensão razoável do caos que estamos vivendo, Brice conclama o repertório de todas as humanidades, sem desprezar os aspectos que podem nos mostrar cada uma das mais diferentes e possíveis perspectivas.

Na impossibilidade de abraçar o todo, o melhor é ir pelas partes. Sabedoria já antiga, mas ainda boa e fecunda. E são tantas partes que, tão difícil quanto concluir, é começar. Mas isso, com certa variação de grau, vale para todo e qualquer fenômeno da vida humana.

O problema, talvez, é que estamos diante de algo que ainda sequer tornou-se “fenômeno”, isto é, algo que possa ser traduzido, de maneira mais ou menos coerente, para o mundo de nossas representações, daquilo que podemos efetivamente conceber mediante imagens, palavras e conceitos; de algo que, em outros termos, possa ser dimensionado e delimitado com alguma precisão.

O leitor, que é sempre um desconfiado, deve naturalmente estar se perguntando: “do que este prolixo articulista está falando? É do Bolsonaro, do bolsonarismo e da vida política brasileira? Ou da pandemia, da crise que é mundial e não apenas brasileira?”

Nem de um, nem de outro, propriamente, caro(a) leitor(a), mas de seu funesto encontro, algo cuja tragédia ainda estamos longe de poder, sequer, dimensionar. A catástrofe de um terremoto tem uma duração mais longeva que seus tremores e abalos.

Mas aqui falamos, leitor amigo, do encontro indelimitável de duas catástrofes cujos tremores já tardam a tal ponto que, a nós, por enquanto, resta adaptarmo-nos à vertigem. Talvez, já estamos a nos adaptar. Muitos, menos sensíveis, já não sentem mais náuseas.

Se é certo dizer da pandemia mundial que ela tem um início preciso no tempo, não o é quanto ao bolsonarismo. Ninguém sabe ao certo quando este começou.

foto protesto 2013 meu partido é meu país - Bolsonarismo e pandemia: um encontro de catástrofes
Manifestação de 2013, na Avenida Paulista, com cartaz que rejeita partidos e que viraria slogan de camiseta | Agência O Globo / Michel Filho

Mesmo o historiador que supõe possuir a régua dos tempos ficaria na dúvida quanto ao começo cronológico do bolsonarismo: se com a campanha eleitoral de 2018 e o uso publicitário e massivo das fake news; se com o golpe de 2016; se com os protestos de 2013 e a correlata negação da política; se com a Operação Lava Jato, sua retórica fanhosa e seu juridicismo vesgo e corrosivo.

Ou ainda se sua existência, amparada não na circunstância, mas na cultura, se prolonga por todo o nosso passado de mando e obediência, de autoritarismo e castração. O leitor deve, inteligentemente, supor que a última opção é a mais provável, embora não rechace a importância das outras.

“O início preciso da pandemia deflagrou uma série de contingências que conseguiu lançar, num mesmo movimento, o mundo inteiro a um estado extracotidiano marcado pela completa indefinição do futuro”

Mas isso, longe de resolver o problema, o radicaliza: continua indelimitável o seu início – a tal régua dos tempos, como um deus ou um demônio, tem lá suas manhas e seus caprichos.

Por outro lado, o início preciso da pandemia deflagrou uma série de contingências que conseguiu lançar, num mesmo movimento, o mundo inteiro a um estado extracotidiano marcado pela completa indefinição do futuro: um estado de alteração frenética das rotinas, dos hábitos, dos costumes que não tem data para acabar, mas que já aponta para efeitos posteriores à pandemia.

A ameaça vem tanto do futuro como do passado

Já se fala de um pós-pandemia, não só para os próximos meses, mas para os próximos anos, para as próximas décadas, para o caminhar do século. Se o leitor permite uma síntese desse imbróglio – a História é sempre um imbróglio de várias histórias –, poderíamos fazê-lo assim: o bolsonarismo é um fenômeno com vários começos, ao passo que a pandemia um com diferentes términos.

Daí que o encontro entre ambos seja fenômeno indelimitável, exigindo que a reflexão sobre o tema seja tão longa quanto a tarefa a que os deuses condenaram Sísifo. A diferença é que Sísifo era um rebelde e cumpria a pena que lhe foi designada pelos deuses por sua sacrílega rebeldia.

Nós, ao que parece, não somos rebeldes – mesmo que o acúmulo de notas de repúdio pretenda passar a impressão contrária. Tampouco o castigo que recai sobre nossos ombros é de responsabilidade dos deuses: temos nossos próprios verdugos, demasiada e até grotescamente humanos.

Compreender a catástrofe desse encontro, portanto, requer esforço, tempo e paciência, mas num contexto onde tudo foi deslocado para um regime de urgência, de indefinição e ansiedade; eis o nosso drama, que é também o seu, caro leitor.

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Apoiadora de Bolsonaro carrega cartaz antissistema com referência à pandemia | José Lucena / Futura Press

Não descuidemos nem de um e nem de outro flanco: a ameaça, agora, vem tanto do futuro quanto do passado. Da completa indefinição que o futuro nos medra aos traumas, vícios, síndromes e complexos que o passado nos lega.

Estes dois carrascos selaram entre si um beijo de morte. A pandemia, que no melhor dos casos seria má, tornou-se pior sob efeito do bolsonarismo; o bolsonarismo, que por si só já tinha algo de violento, cruel, irracional, sem deixar de ser humano – sim, o bolsonarista é gente como “a gente” – com a pandemia tornou-se hediondo.

A pandemia dificulta atenuar os efeitos nefastos do bolsonarismo – com um impeachment, por exemplo; e o bolsonarismo, por sua vez, dificulta aplacar a propagação da pandemia e seu estado de crise. Qual um verme, ele tem se alimentado da pandemia e de seus mortos.

A pandemia, com essa força extra da irracionalidade, tem matado mais do que o faria sem seus cúmplices. O leitor, otimista, pode advertir que a pandemia tem enfraquecido Bolsonaro, que ele tem perdido popularidade e que até já é possível antever seu fim.

Mas o bolsonarismo, caro leitor, é maior e muito maior do que o pobre e abestalhado Bolsonaro: ele não chega a ser propriamente uma ideia – como Lula, num acesso de platonismo narcísico, disse de si mesmo – mas é também algo que, como as ideias, não morre tão facilmente como morrem os homens e mulheres de carne e osso em meio a uma pandemia.

Mas isso, caro leitor, é assunto para nosso próximo encontro. Combinamos que iríamos por partes.


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Ulisses do Valle
doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor da Faculdade de História da mesma instituição, é autor de "Sádicos e masoquistas: uma interpretação do Brasil à luz de Gilberto Freyre"