Grande expectativa, recorde de views e de números em geral pela Netflix e muita polêmica, elogios e frustração. Esse é um pequeno resumo sobre a repercussão do filme mais debatido nas redes sociais das últimas semanas: Bird Box, dirigido pela dinamarquesa Susanne Bier. De antemão, é preciso dizer que não se trata de nenhuma obra extraordinária, talvez nem mesmo a melhor da cineasta – ressalte-se, a propósito, que ela venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Hævnen (2010).

É uma trama de suspense hollywoodiano básico, daquelas em que a audiência “sabe” (ou infere com certa facilidade) qual será o passo seguinte do roteiro. Qualidade e arte do filme à parte e tendo em vista que o tema central das muitas metáforas – a depressão – é tratado talvez até de forma mais rica em outras películas, vale a pena discutir: o alcance atingido, e que fez uma das cenas com a protagonista virar meme, indica que pode haver um debate produtivo.

A sinopse do filme: Malorie (Sandra Bullock) conduz um menino e uma menina de 5 anos por uma aventura pavorosa. O trio tem de atravessar um rio perigoso e um bosque para encontrar um abrigo onde estarão os três a salvo do assédio de entidades que levam quem as vê inevitavelmente ao suicídio imediato. Detalhe: precisam fazer todo o trajeto às cegas, de olhos vendados ou encobertos dentro do barco, para evitar a morte por qualquer contato visual com o mundo exterior.

gary bird box - "Bird Box": a gaiola nossa de cada dia pode render um bom papo na mesa do bar
A dificuldade de encarar o mundo exterior e suas tragédias, uma das chaves de “Bird Box”

Com o filme, Susanne coloca em pauta o grande mal do século, a depressão. As entidades que assombram as pessoas representariam os demônios interiores das pessoas (seus medos, traumas, suas culpas, perdas etc.) que, quando lhes fossem escancarados, as levariam a sucumbir à loucura.

O fato de os loucos serem “imunes” a essas entidades é uma espécie de comprovação da tese: eles não podem ser atingidos pela insanidade porque, obviamente, já vivem dentro dela. O que seria esse estado de loucura, em uma abordagem mais ampla? Como as intervenções dos dementes são puxadas várias vezes pelo apelo para “ver Deus”, isso leva a uma interpretação lato sensu de como o fundamentalismo religioso busca se impor, no mundo atual, de modo agressivo, como a única verdade a ser descoberta. Não que o lado insano do fanatismo seja alguma novidade, diga-se.

Uma versão interessante de olhar sugere que tudo o que transcorre, na verdade, seria uma viagem interna de Malorie pelos próprios dramas às vésperas de ser mãe: a gravidez é algo com que ela não parece nada animada – pelo contrário, a perturba e aprofunda seu viés antissocial e isolacionista. Poderia todo o filme, então, ser também visto como uma alegoria do período puerperal, detalhando o quadro de depressão pré e pós-parto? É algo plausível em determinada linha, se se considerar uma pista importante a observação de que a obstetra de Malorie aparece tanto no início do filme (antes do caos apocalíptico se iniciar) como no fim, quando a protagonista encontra a paz, dando nomes às crianças (seu filho biológico e a filha que criou após a mãe dela, companheira de refúgio, ser morta por um louco que a obrigou a olhar as entidades), até então chamadas por ela apenas como “Garota” (Girl) e “Garoto” (Boy).

Gaiola versus liberdade

Não querer ou não poder olhar para fora de si, ficar dentro de sua própria gaiola (bird box) para se sentir seguro é uma tentação. O medo de enfrentar o que está além, de voar alto, de querer enxergar as coisas como são, pode ser também uma espécie de morte, do verdadeiro fracasso – em tempo, os pássaros são coadjuvantes importantes do filme (e da viagem de Malorie) e não custa lembrar toda a simbologia que os envolvem relacionada a mensagens e revelações, nem sempre agradáveis, na mitologia e na própria história do cinema (com Os Pássaros de Alfred Hitchcock sendo o exemplo mais óbvio).

Depois de tudo, vem à cabeça, num relance, a letra de Viagem ao Fundo do Ego, em uma canção pop dos anos 80 da banda Egotrip. Compensa vê-la toda (clique aqui para isso), mas os versos “quase no fim da estrada, uma voz veio me dizer ‘se você quer seguir, cuidado, não vai gostar do que vai ver!’”. Outra trecho musical pertinente é o refrão de “Medo da Chuva”, de Raul Seixas (“perdi meu medo da chuva/ pois a chuva voltando pra terra traz coisas do ar/ aprendi o segredo da vida/ vendo as pedras que choram (sonham) sozinhas no mesmo lugar”).

De fato, Bird Box (disponível apenas pela Netflix) não chega a ser um filmaço, mas também não é perda de tempo assisti-lo, seja por diversão ou para ter temas para um bate-papo depois das duas horas de olho na tela – no caso da televisão/computador.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.