Você acharia mesmo que numa competição de alto nível não se pode escolher adversário? A história conta que não é bem assim

Imagine você, torcedor de um time médio em total evidência, no melhor de seus momentos. Digamos que seja um Sport Recife. E seu colega, fanático por um time que um dia já foi considerado grande e hoje luta para recuperar a glória. Pode ser o Botafogo.

A competição é a Copa Libertadores. Ambos estão com a mesma pontuação e jogam entre si para definir uma vaga na fase de mata-mata. Como todos os demais grupos já estão concluídos, Sport e Botafogo já sabem quem pegariam, caso ficassem em 1º ou em 2º (esqueçam-se de que a Libertadores hoje tem sorteio para essa fase). E aí percebem que, no caminho para a final, quem ganhar pode pegar clubes como Boca Juniors, Independiente, Peñarol, Grêmio, Palmeiras e Flamengo. Já o derrotado, nos cruzamentos até a decisão, encararia Lanús, Colo-Colo, Cerro Porteño, Independiente (de Medellín), Carabobo e Vasco.

Sport e Botafogo, no caso, seriam respectivamente Bélgica e Inglaterra no jogo desta quinta-feira, 28. Fala sério, você acharia mesmo que “tanto faz”, que quem está numa competição assim não pode escolher adversário?

lukaku hazard 450x300 - Bélgica x Inglaterra: o curioso caso do jogo em que quem ganhar vai perder
Lukaku, o artilheiro belga, será poupado da partida para prevenir agravamento de contusão | AFP/Kirill Kudryavtsev

Inglaterra x Bélgica era um dos jogos mais esperados tecnicamente desta fase de grupos da Copa do Mundo e se tornou um dos mais curiosos pragmaticamente para a sequência das seleções, já classificadas após duas vitórias no Grupo G.

As duas seleções estão empatadas em quase tudo até o momento: pontos, vitórias, saldo de gols, gols marcados. A “vantagem” inglesa é no histórico disciplinar, por ter levado apenas dois cartões amarelos contra três dos belgas. Por isso, a Inglaterra é a líder do grupo.

Quem vencer vai para o, digamos, “lado A” do chaveamento e terá de se virar com adversários como França, Uruguai, Portugal, Argentina e Brasil até a final. A vantagem será pegar, nas oitavas, o fraco Japão.

Quem perder pega a talentosa e imprevisível Colômbia agora, mas, daí até a final, só terá a Espanha como “peixe grande” – e apenas na semifinal. Os demais que podem passar pelo caminho até lá? Croácia, Dinamarca, Suíça, Suécia e Rússia. Fica teoricamente mais fácil ou não?

É bom ressaltar outro aspecto: ficar em 2º lugar significará jogar três vezes em Moscou. Para a Bélgica será excelente, já que a delegação está hospedada exatamente na capital russa. Já a Inglaterra, que está em São Petersburgo, se ficar em 1º teria a vantagem de fazer a semifinal nessa cidade. Resumindo: logisticamente, é bom para ambas o empate.

Meio time da Bélgica será poupado. Do lado inglês também pode haver esse estratagema. Será, no mínimo, um jogo atípico de assistir, já que não se pode chamar nem de “jogo de compadres”, porque o pragmatismo não leva a querer um empate, mas a vitória do outro!

A Fifa diz estar de olho em abusos em relação ao fair play. E os torcedores que compraram o ingresso para ver um jogo bastante disputado terão de se contentar com um jogo esvaziado de muitas das principais estrelas. No máximo, terá algo bem curioso.

Cultura Acessória

Alemanha, a rainha do pragmatismo em Copas

Jogos de compadres não são novidade em Copas do Mundo. Nesse sentido, a seleção alemã foi protagonista de atitudes pragmáticas na fase de grupos em pelo menos três ocasiões.

  • Fritz Walter - Bélgica x Inglaterra: o curioso caso do jogo em que quem ganhar vai perder
    O capitão Fritz Walter desfila com a Taça Jules Rimet após o jogo

    Em 1954, pegou a fortíssima Hungria de Puskas, Szibor e Kocsis, mas o técnico preferiu escalar o time reserva. Perdeu por inacreditáveis 8 a 3. Reencontraram-se na final e a vitória foi dos alemães-ocidentais, por 3 a 2.

  • Em 1974, sendo anfitriã da competição, perdeu por 1 a 0 para a modesta Alemanha Oriental e pôde ter um caminho livre de Brasil e Holanda até a decisão, quando venceu a temida Laranja Mecânica comandada por Johann Cruijff.
  • Em 1982, como os jogos finais das chaves ainda não eram simultâneos, Alemanha e Aústria entraram em campo sabendo que a vitória dos primeiros por 1 a 0 (e apenas este placar) classificaria ambas e eliminaria a Argélia, que já havia jogado com o Chile. Não por coincidência, foi o resultado final da partida. Os alemães chegaram à decisão

    perderam o título para a Itália.

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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.