Victor Hugo Viegas Silva*
Cristiele Valente**

Apesar da Prefeitura de Aparecida de Goiânia anunciar que 29% dos leitos de UTI estão vagos na rede de saúde do município, no momento, nenhum respirador está disponível. É uma das coisas que descobrimos no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), sistema do Departamento de Informática do SUS (DataSUS) que fornece dados detalhados sobre os hospitais de todo o Brasil.

Buscamos essas informações para entender por que todas as prefeituras afirmam que possuem leitos enquanto impera na população a sensação de que está difícil conseguir internação e que há longas filas de espera. Isso é realidade pelo menos para a rede estadual de saúde onde, como foi revelado pelo O Popular, seis em cada dez pedidos vindos do interior para internação em UTI estão sendo negados.

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Vejamos a realidade em um exemplo local. A gestão de Gustavo Mendanha (MDB) em Aparecida criou um portal interativo para avaliarmos como está a situação do covid-19 na cidade. Esse portal informa uma taxa de ocupação de UTI de cerca de 70% dos leitos, sem maiores informações sobre onde estes leitos estariam disponíveis.

A taxa de ocupação de leitos de UTI é um dos fatores para avaliar o fator de risco e o nível de abertura das atividades econômicas. Terça feira passada, 14/7, a quantidade de dias fechados do comércio foi reduzida, pois a cidade havia passado do nível “alto” para “moderado”. Além disso, teriam sido adquiridos novos leitos de UTI e novos 40 respiradores. Isso justificaria a reabertura.

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Segundo apuração com dados oficiais, não haveria nenhum respirador disponível em Aparecida de Goiânia, mesmo com vagas em leitos | Reprodução

Quer dizer que está tranquilo conseguir uma internação por covid-19 em Aparecida de Goiânia? Para entender melhor onde estão esses leitos e esses respiradores disponíveis e por quê, fomos aos dados.

Descobrimos o seguinte: não existe respirador mecânico para todos os leitos de UTI disponíveis. O respirador é equipamento-chave no atendimento a pacientes graves da covid- 19 – “é praticamente isto – atendimento em UTI de covid-19 é igual a ventilador”, nos garantem duas técnicas de enfermagem do Hospital das Clínicas (HC) que pediram anonimato. Pra que servem, então, esses leitos adicionais?

Essa situação de ter mais leitos do que respiradores é a de quatro dos maiores hospitais que recebem pacientes para tratamento de covid em Aparecida de Goiânia. Não sabemos quantos dos leitos de UTI disponíveis de fato estão ocupados, mas pudemos apurar no CNES do DataSUS que todos os respiradores disponíveis em Aparecida de Goiânia estão em uso neste momento.

Sendo assim, qualquer paciente que tenha a capacidade respiratória comprometida a ponto de precisar de um respirador não terá o equipamento disponível na rede hospitalar da cidade. Sabemos que esse é o principal motivo de encaminhamento das pessoas com covid-19 para UTIs, uma vez que casos mais leves podem ser tratados em leitos de enfermaria. De que adianta terem leitos de UTI disponíveis se os mesmos não têm respirador para tratamento dos doentes?

É preciso questionar qual o nível de segurança (e risco) oferecido para uma reabertura se não há garantia de respirador para nenhuma nova pessoa que porventura chegue ao estado grave de covid-19 na cidade. Seria importante averiguar se esse cenário leitos/respiradores se repete em outras cidades da região metropolitana de Goiânia e interior de Goiás.

* Victor Hugo Viegas Silva é servidor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e jornalista.
** Cristiele Valente é bióloga pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e doutora em Ecologia e Evolução pela UFG.


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