Texto 5 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Manoel Gustavo

Pelo bom motivo de não ter sido publicada em português, a coletânea Sopa de Wuhan – Pensamiento Contemporaneo em Tiempos de Pandemia não causou grande impacto no debate público brasileiro.

Sua leitura, no entanto, é extremamente esclarecedora acerca das aporias que o pensamento crítico pode eventualmente impor a si enquanto busca pela tão debatida, tão urgente renovação das esquerdas.

A publicação, disponível na rede, foi publicada pela editora Pablo Amadeo, com a ASPO editorial, e traz artigos de Judith Butler, David Harvey, Slavoj Zizek, Byung-Chul Han e Jean Luc Nancy, entre outros, datados entre 23 de fevereiro e 26 de março.

Nas redes sociais, a publicação recebeu críticas quanto à capa, que ao reproduzir a imagem de morcegos, alimentaria humores racistas quanto à China, argumentaram alguns.

O Observatório da Economia Contemporânea, do Le Monde Diplomatique, apontou o etnocentrismo de uma abordagem que não teria reservado à China senão um lugar marginal no esforço de imaginação sobre o que seria o mundo pós-pandemia.

É, no entanto, na contribuição de Giorgio Agamben que gostaria de me deter.

O filósofo italiano fez coro com os negacionistas, minimizou a gravidade da pandemia e, para perplexidade do leitor brasileiro, comparou-a a uma gripe, insinuando que sua gravidade era exagerada para atender a sanha por controle de um Estado à imagem de sua teorização da biopolítica – que destaca no Estado seu potencial de controle da vida, inclusive dos corpos dos indivíduos.

Tão confiante Agamben estava nas lentes da biopolítica que tratou logo de tomar os decretos governamentais que conduziram às medidas de isolamento social como expressão de um controle desmedido.

Não se trata aqui de desqualificar o edifício teórico de Agamben que, editor das obras de Walter Benjamin na Itália e um dos últimos alunos de Heidegger, soube como poucos interpretar estes autores e combiná-los a um reflexão sobre o papel do Estado como instância de administração política da vida e dos corpos – como instância de biopolítica, em suma.

O que pretendo destacar é que o caso de Agamben é aquele do intelectual que, tão confiante no seu método, tão familiarizado com sua eficácia, o aplica uma vez mais sem perceber que desta feita não obteve o resultado costumeiro.

Tão confiante Agamben estava nas lentes da biopolítica que tratou logo de tomar os decretos governamentais que conduziram às medidas de isolamento social como expressão de um controle desmedido, como evidência da tese benjaminiana de que o estado de exceção tornou-se regra.

Precisou ser chamado ao bom senso, ainda que da maneira mais amigável, por Jan Luc Nancy, que recordou a desconfiança com que o colega, certa vez, lhe recomendou não fizesse um transplante de coração.

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Giorgio Agamben: coro com os negacionistas e minimização da gravidade da pandemia | Reprodução

Nancy afirma ainda que talvez não estivesse vivo caso tivesse dado ouvidos ao colega 30 anos antes. Conclui, da maneira mais cortês, recordando a bondade e fineza de Giorgio Agamben, contemporizando que, afinal, as pessoas se enganam.

O leitor brasileiro, em especial, lê atônito Agamben comparar a covid-19 a uma gripe, recordando o momento em que Jair Bolsonaro, em tudo antípoda de um pensamento como o de Agamben, teceu consideração semelhante.

Tão convicto Agamben estava de que a situação não era mais que uma oportunidade de comprovar novamente a eficácia das teses sobre biopolítica, que terminou por dedicar um olhar por demais apressado às evidências científicas sobre a especificidade da pandemia de covid-19 e as altíssimas taxas de propagação do coronavírus.

Tanto maior foi o mal-estar causado pelo argumento de Agamben quando somos recordados por Byung-Chul Hang que foram justamente os Estados asiáticos nos quais menos se pode falar numa “esfera privada” no tocante à internet que melhor controlaram a pandemia. Talvez a China legue à Europa tais estratégias de controle a um só tempo social e digital.

Sem minimizar a gravidade da pandemia de covid-19 e sem deixar de prestar o devido reconhecimento às ciências no enfrentamento da situação, Han chegou a uma conclusão semelhante à intuição de Agamben: percebeu o potencial de controle que uma pandemia sugere a um Estado inclinado a gerenciar crises de forma autoritária, sem com isso culminar no desdém pelos protocolos sanitários, como faz Agamben num instante de paranoia biopolítica.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
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Manoel Gustavo
doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG) - unidade Uruaçu