Miguel era filho único de Mirtes. A razão de viver de Mirtes.

Tinha 5 anos e morava com a mãe, empregada doméstica, em um bairro de baixa renda do Recife.

Mirtes tinha de ir trabalhar, e então perguntou para a patroa se poderia levar o filho.

É que há pandemia, então não há creche para deixar as crianças.

E a avó desta vez não poderia fazer o papel da mãe e ficar com o neto nesse dia, porque precisaria pegar um medicamento.

O prédio da patroa era um condomínio vertical luxuoso.

Mirtes teve de descer para passear com o cachorro da patroa. Pediu para ela ter um pouco de paciência e olhar seu filho enquanto ela fazia o roteiro com o animal.

A empregada Mirtes fez bem sua tarefa. O cachorro certamente estava satisfeito com o passeio.

Mas, quando voltou para o prédio, a doméstica viu que a patroa não tinha cumprido a parte dela. Seu pequeno Miguel, o filho único, estava morto.

Ele, menino levado, tinha entrado correndo no elevador. A patroa veio atrás, segurou a porta, falou alguma coisa para ele, não gostou da resposta e apertou o botão do último andar.

Miguel, este sim, gostou daquela brincadeira de apertar botão e abrir portas. Saiu por ela no 9º andar. Achou outra porta, curioso que era.

Ele só queria brincar e então achou uma muretinha para escalar, ali depois da porta. Foi a última brincadeira.

Miguel era morador da periferia. Não devia conhecer muito bem como funciona um elevador. Também não tinha noção da altura que tinha depois da muretinha.

Mirtes perdeu Miguel, que foi do chão para o céu.

A patroa foi presa, mas já está solta. Rico pode pagar fiança. Mas a vida de Miguel não tem preço nem retorno.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
#FiqueEmCasa    #SeSairUseMáscara

 


COMENTÁRIOS




Estádio das Coisas
A arena para todos os debates