Para quem tem acompanhado – com maior ou menor ansiedade, mas nunca sem ela – o dia a dia no Brasil do registro de casos e de mortes em consequência do novo coronavírus, não há nada mais temido do que uma terça-feira.

É que, durante o fim de semana, por questões técnicas (plantões com equipe reduzida, folgas, laboratórios fechados etc.), ocorre uma redução da velocidade de processamento e divulgação dos resultados.

Assim, os números de sábado, domingo e segunda-feira costumam ser mais brandos. Mas as pessoas não deixam de ir ao hospital, nem de se contaminarem, nem de infelizmente virarem estatísticas de vítimas porque é fim de semana.

Por isso, a terça-feira tem sido um pesadelo a cada semana.

É o dia de desaguar o acúmulo.

E os números têm sido sempre mais alarmantes, não apenas em relação aos registros diários dos dias anteriores, mas também em relação à sequência da curva da semana anterior.

Vejamos a escalada dos casos nas terças-feiras, a partir do dia 21 de abril:

terça feira - A temível curva da morte nas terças-feiras de pandemia no Brasil
A curva da morte nos registros das terças-feiras, nas últimas cinco semanas | Reprodução Globonews

De 21 a 28 de abril, o aumento foi de 197%, ou seja, quase o triplo – mas há de se ressaltar que o dia de referência era também o feriado de Tiradentes, o que contribui para um achatamento do número.

Entre 28 de abril e 5 de maio, houve um acréscimo de 21% no registro de óbitos. Já desta data até a terça seguinte, 12 de maio, na semana passada, o aumento dos registros no dia foi de 46,8%.

Não foi por acaso, então, que o Brasil ultrapassou pela primeira vez o número simbólico das mil mortes em uma terça-feira. Já estava previsto para quem acompanha essa agonia semanal.

Ocorre, no entanto, que mais do que “ultrapassar”, o que houve foi um verdadeiro atropelamento da marca dos quatro dígitos: foram 1.179 mortes registradas.

Somente os Estados de São Paulo (324) e do Rio de Janeiro (227) responderam por quase metade do total.

Se há algo de positivo na extração de números tão ruins, diga-se que houve uma redução na porcentagem de subida dos registros de óbitos: de 46,8% para 33,8%.

Pode ser isso um sinal de que a curva está em ascendência ainda, mas talvez com menos força? Pode. Mas não há certeza alguma.

Até porque o Brasil é um continente em si e a maioria de nossos Estados tem área maior do que a maioria dos países europeus. Pode ser que alguma localidade exploda no número de casos e mortes a qualquer momento e isso impulsione ainda mais a curva.

Mais do que isso, sem testagem em massa, os brasileiros caminham no escuro.

Mais ainda: no escuro e sem saber para que rumo, já que o governo federal grita de um lado da caverna (ao trabalho!) e os governadores e prefeitos das grandes cidades clamam do outro (isolamento social).

Sem método, ficamos no pior dos mundos. E resta-nos, apenas, a torcida. Um sincero wishful thinking, como se diz em inglês, como o que quisemos fazer acima, vendo alguma redução da inclinação da curva da morte.

Que a próxima terça-feira nos seja mais leve. Torçamos – e oremos.


O portal Estádio das Coisas apoia as medidas
de isolamento social para conter o avanço do novo coronavírus.
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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.