Texto 9 para o Ciclo de Artigos Pandêmicos: Diálogos sobre Lockdown Político, sobre desafios da conjuntura brasileira diante da crise e do coronavírus (clique aqui para acessar o texto anterior)

Lídia Freitas

Na semana em que o Brasil contava com espantosos 55 mil óbitos por covid-19, uma manchete de fim de página na Folha de São Paulo captou minha atenção: “Ernesto Araújo nomeia especialista em filósofo fascista para banca examinadora do Itamaraty” (23/6/20).

César Alberto Ranquetat Jr., estudioso de Julius Evola e nomeado para a banca que irá selecionar 25 novos diplomatas, foi entrevistado para a matéria e se saiu perfeitamente bem. Alegou que, como cientista social, era seu papel estudar as mais diversas manifestações intelectuais e políticas, sendo bastante corriqueiro na academia o estudo do fascismo – o que ninguém com algum conhecimento dos meandros desse campo disciplinar poderia negar.

Contudo, o próprio Ranquetat deu a senha de algo muito mais obscuro ali. Tentando justificar que era um intelectual capacitado o suficiente para a banca, citou que era autor de diversos livros, entre eles Ensaios Antimodernos.

O título deveria ser suficiente para deixar qualquer um intrigado, e me levou diretamente ao Google. Para meu espanto (mas nem tanto), o livro estava à venda na loja oficial do site integralismo.org.br e é descrito em um outro site (dedicado ao conservadorismo) como um bom livro para compreender a “perspectiva antimoderna e tradicionalista”.

O material, ao que tudo indica, não traz um estudo meramente descritivo e/ou analítico, mas claramente apologético ao antimodernismo e ao tradicionalismo.

O tradicionalismo de Ranquetat não é um tradicionalismo genérico, com t minúsculo. É o (T)radicionalismo como projeto de “nova civilização”, apresentado por J. Evola e presente tanto nos escritos do chanceler Ernesto Araújo quanto no pensamento do guru do clã Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

Para melhor compreender as relações de Araújo com o Tradicionalismo e com a extrema-direita global, sugiro a leitura de War For Eternity (2019), do jornalista Benjamin R. Teitelbaum.
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Uma visita rápida ao site da Funag [Fundação Alexandre de Gusmão, fundação pública vinculada ao Instituto Rio Branco] revela um quadro ainda mais preocupante. Estão lá anunciadas três atividades: 1) Conferência “Um século de escombros: pensar o futuro com os valores morais da direita”; 2) Podcast: conferência com Felipe G. Martins; e 3) “Conferência castro-chavismo: crime organizado nas Américas”. Atualmente, temos, portanto, um Itamaraty a serviço de um ambicioso projeto global de ultra-direita.

abraham weintraub 300x171 - A guerra cultural olavo-bolsonarista e a extrema-direita em contexto pandêmico
Abraham Weintraub, o monarquista assumido que fez a Educação refém por 14 meses

No campo da educação, estivemos reféns, por 14 meses, da figura execrável de Abraham Weintraub, um monarquista assumido que ganhou notoriedade por seus comentários aviltantes em redes sociais. E, falando em monarquias, o núcleo ultraconservador de apoio ao governo conta até com um príncipe para chamar de seu: o deputado Luiz Phillipe de Orleans e Bragança, eleito na esteira da onda bolsonarista.

Muito além do neopentecostalismo e do punitivismo penal (intensificado pela operação Lava-Jato), ao se eleger, Jair Bolsonaro levou ao poder consigo um grupo de amigos muito mais perigosos: o Tradicionalismo fascista de Evola, o monarquismo, o integralismo, o olavismo, e o militarismo saudosista da ditadura civil-militar.

João Cezar de Castro Rocha, docente da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), está prestes a lançar um livro sobre o que tem chamado preliminarmente de Guerra Cultural Bolsonarista.

Para o pesquisador, ao contrário do que apontam análises economicistas sobre a ascensão de Bolsonaro, não é o projeto ultraliberal de Guedes o sustentáculo do governo do ex-capitão, mas sim a guerra cultural. Assim, o núcleo do bolsonarismo se encontraria no aparelhamento de importantes ministérios por personagens obscurantistas como Ernesto Araújo, Damares Alves, Ricardo Salles e Abraham Weintraub (chamados pela grande imprensa de “ala ideológica” do governo).

Para Rocha, a doutrina de segurança nacional e o anticomunismo paranoico do Orvil (Livro Negro do Terrorismo no Brasil) seriam as bases ideológicas da extrema-direita brasileira que chega ao poder em 2018, diferentemente do contexto norte-americano e europeu.

“O negacionismo e o anticientificismo do presidente e de seus asseclas, associados também a uma postura de masculinidade tóxica e de pânico moral anti-China, levaram a toda sorte de conspirações e notícias falsas sobre o vírus e a uma resistência por grande parte da população em seguir as restrições necessárias neste momento de emergência sanitária”

A guerra cultural bolsonarista marchou virulentamente para o campo da saúde nos últimos três meses e fez vítimas (63 mil no momento em que este texto é editado, sexta-feira, 3/7).

O negacionismo e o anticientificismo do presidente e de seus asseclas, associados também a uma postura de masculinidade tóxica e de pânico moral anti-China, levaram a toda sorte de conspirações e notícias falsas sobre o vírus e a uma resistência por grande parte da população em seguir as restrições necessárias neste momento de emergência sanitária.

Após ser gravado ofendendo ministros do Supremo Tribunal Federal, Abraham Weintraub, um dos pilares da guerra cultural e do “núcleo ideológico”, foi forçado a deixar a pasta em junho de 2020.

A saída dos irmãos Weintraub da base do governo foi vista por alguns como uma possível baixa do lado bolsonarista da guerra cultural. Mais cautelosa, prefiro dizer que perderam uma batalha, mas a guerra ainda está longe de terminar.

Já é hora de calçarmos as botas e partirmos para as trincheiras, antes que o projeto de gramscismo às avessas do olavo-bolsonarismo saia vitorioso.


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Lídia Freitas
mestra em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG)