Basta uma olhada nos planos do pedetista para um futuro governo e em suas palestras pelo Brasil e pelo mundo afora para ver projetos claramente nacional-desenvolvimentistas 

por Arthur Pires Amaral*

Este texto não é para os eleitores do Lula em geral – afinal, desde as eleições de 2002 eu tenho votado no PT para a Presidência da República. Mas, sim, direciono minhas palavras aos petistas e a outros setores da esquerda que costumam rotular o pré-candidato Ciro Gomes (PDT) com termos depreciativos, tais como: “coronel”, “direitista”, “golpista” e/ou “machista”. Para cada um desses termos classificatórios tento esboçar aqui um argumento que lhes contradiga.

Em primeiro lugar, pensemos em Ciro como um “coronelzão” do sertão do Ceará, cujo reduto eleitoral se concentre na cidade de Sobral (“nicho” dos Ferreira Gomes, sua família). De acordo com dados do Ministério da Educação, o referido município se encontra em 1º lugar do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nos anos iniciais do ensino fundamental e em 6º lugar em seus anos finais, no mesmo ranking. Outra informação interessante: Ciro não é dono de nenhum meio de comunicação local, como rádios, TV ou imprensa.

Ciro Gomes 450x300 - A esquerda contra ela mesma: um debate provocador em torno de Ciro Gomes
Ciro Gomes tem discurso com agenda e restrições mais à esquerda do que Lula quando foi eleito, argumenta articulista | Divulgação

Por outro lado, o ex-governador do Ceará Tasso Jereissati (PSDB) é dono de vários órgãos de imprensa naquele Estado e nunca contribuiu de forma efetiva para a melhoria da educação básica cearense. Entretanto, nunca ouvi alguém chamar Tasso de coronel, assim como o seu parceiro tucano Geraldo Alckmin, que esteve por quatro mandatos à frente do governo de São Paulo e, como bem sabemos, possui os maiores órgãos de imprensa (“Estadão”, “Folha de S. Paulo”, Band e “Veja”, entre outros) a seu inteiro dispor – nem vamos falar da baixa qualidade do ensino público paulista e da profunda desvalorização de seus profissionais de educação. Então, deixa eu ver se entendi: por que seria coronel aquele primeiro, que transformou a educação escolar de seu município em uma das melhores do País? Por que setores da imprensa adotam esse discurso para atacá-lo?

Seguindo adiante, pensemos em Ciro Gomes como um “direitista” e “golpista”. Políticos que se identificavam como sendo de esquerda no passado, como os tucanos Fernando Henrique Cardoso, José Serra (ex-presidente da UNE nos anos 1960) e Aloysio Nunes (o qual, inclusive, participou da luta armada contra a ditadura), se juntaram hoje a uma direita entreguista e golpista. A esquerda não tem a mínima dúvida disso.

Porém, não se pode fazer o caminho oposto? Alguém que começou sua carreira política na centro-direita – caso de Ciro, que, bem jovem, chegou a ser filiado à Arena – não pode se transformar num ator político combativo de esquerda ou, se preferir, de centro-esquerda? Que purismo é esse? Afinal, as identidades não são estáticas, como bem lembra a antropologia!

Basta uma olhada em seus planos para um futuro governo, caso seja eleito presidente, esboçados nas inúmeras palestras e debates que Ciro vem articulando pelo Brasil e pelo mundo afora – em universidades renomadas como Harvard (Estados Unidos), Cambridge (Reino Unido) e Sorbonne (França). São projetos claramente de esquerda e nacional-desenvolvimentistas que garantem, entre outras coisas: o incremento maciço da produção industrial brasileira e, consequentemente, do número de postos de trabalho formais; o retorno da exclusividade da Petrobras na exploração do pré-sal, expropriando as empresas petrolíferas estrangeiras após as indenizações devidas; uma reforma tributária e fiscal que desonere os mais pobres e a classe média, além de aumentar progressivamente os impostos sobre grandes fortunas e heranças; e uma reforma da Previdência que leve em conta a profunda diferença que há nas situações dos trabalhadores brasileiros – pois não há como comparar a situação daquele(a) trabalhador(a) rural do semiárido nordestino ou a de um(a) professor(a) da rede básica de ensino, por exemplo, com a de um(a) alto(a) empresário(a) da iniciativa privada.

Além disso, Ciro Gomes apoia o PT tanto na esfera federal quanto na estadual – no caso do Ceará – desde 2002, na primeira eleição vencida pelo ex-presidente Lula. O atual governador do Ceará, Camilo Santana, é do PT e somente se elegeu devido ao apoio incontestável de Ciro Gomes e de seus aliados. Camilo, é bom que se diga, agora retribui, tomando Ciro como seu nome à Presidência.

Outro ponto que precisa ser destacado é que Ciro Gomes vem denunciando a farsa do impeachment de Dilma Rousseff (PT) aos quatro ventos desde 2016. Antes de encerrar esse tópico, vale lembrar que, nas eleições de 2002, Lula e o PT divulgaram a famosa “Carta aos Brasileiros”, na qual pediam as bênçãos do mercado financeiro e garantiam a manutenção dos vultuosos lucros dos rentistas. E mais: durante oito anos seguidos, quem comandou a política monetária de Lula foi Henrique Meirelles [hoje pré-candidato do MDB à Presidência], e que fora o número 1 do BankBoston, dos Estados Unidos, o queridinho dos bancos privados brasileiros e dos setores financeiros-especulativos.

Por essa perspectiva, o governo do PT foi de esquerda? Penso que não. Agora vá à internet e veja os ataques que Ciro faz a esses setores rentistas. Páginas da direita liberal, como a InfoMoney, volta e meia lançam matérias mostrando o temor do mercado financeiro caso ele se torne presidente do Brasil. Com Lula esses atores partilharam uma simbiose incrível.

Caminhemos então ao último ponto dessa argumentação: Ciro Gomes como machista. Sem sombra de dúvida, Ciro foi muito infeliz quando, em 2002, disse que o papel de Patrícia Pillar– sua mulher, na época – na campanha era o de se deitar com ele. Por causa disso, já se desculpou incontáveis vezes, revelando ele próprio o quão desastroso foi tal comentário. A própria Patrícia, uma mulher forte e de uma inteligência afiada, também já explicou inúmeras vezes qual foi o contexto que resultou naquela fala de Ciro. Para isso, basta acessar a internet. Agora eu pergunto aos assim identificados “homens cis” (não sei se usei a classificação correta): quem de nós nunca reproduziu uma fala ou um comportamento machista ou, simplesmente, riu, de uma piada sexista? Atire a primeira pedra quem nunca fez isso. Infelizmente, eu mesmo já reproduzi, mesmo sem perceber, muitas vezes essa cultura machista. Ao errar, é importante assumir o erro e se comprometer a não mais repeti-lo.

Mas, apenas para dar uma ideia de como Ciro Gomes já lidava com essa questão de gênero na prática, ainda no início dos anos 1990 – portanto, numa época em que pouquíssimo se discutia sobre a participação da mulher na política: quando foi prefeito de Fortaleza e, depois, governador do Ceará, metade de seu secretariado era composto por mulheres. Agora, pergunto: quantas mulheres foram ministras nos governos de Lula e Dilma, proporcionalmente ao número de ministros homens?

Espero, assim, gerar um debate com aqueles que discordem em parte, ou totalmente, de minha reflexão. Afinal, como Ciro – e ao contrário de um candidato reacionário que lidera pesquisas –, não fujo de confrontos com outros pontos de vistas diferentes dos meus.

* Arthur Pires Amaral é professor e doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de Goiás (UFG).

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