Em primeiro lugar, é preciso dizer: torço para estar errado em relação ao desfecho da análise que se segue. Luiz Henrique Mandetta, a despeito de divergências ideológicas, está fazendo um trabalho correto à frente do Ministério da Saúde e fazendo seu dever, que somente no Brasil atual é considerado, muito além disso, uma grande virtude: segurar o bastão da ciência e das normas sanitárias internacionais para a condução da pandemia em território brasileiro.

Convenhamos que, mesmo sendo um político conservador e de direita – como qualquer filiado convencional do DEM -, basta isso para afrontar um governo fundado na mistura de messianismo com senso comum e conduzido(?) por um presidente paranoico com um staff apelidado de “gabinete do ódio” e aconselhado por um guru terraplanista.

Na entrevista concedida por videoconferência a partir de Goiânia – onde passou o fim de semana com a mulher, a convite do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, seu amigo e também do DEM -, Mandetta deu algumas pistas de que pode estar de saída do governo. Vamos a elas.

 1  Entrevista à Rede Globo

Se há um modo certo de provocar a ira de Jair Bolsonaro e seu séquito é citar a emissora da família Marinho. Imagine, pois, conceder uma entrevista exclusiva à Globo no horário nobre do Fantástico. É algo no mínimo imprudente a quem queira se manter no emprego com um chefe assim. Logo depois da divulgação da matéria, claro, já havia deputado aliado pedindo a cabeça do titular da Saúde.

 2  Frases com mensagens cifradas 

Durante a entrevista ao repórter Murilo Salviano, o ministro expôs algumas reticências sobre sua permanência, algo expressado de forma sutil em determinadas colocações. A mais marcante delas foi ao ser questionado sobre como se dará o período de pico do casos de Covid-19. “Sabemos que serão dias duros, seja conosco, seja com qualquer outra pessoa.”

 3  Críticas indiretas ao presidente e seus seguidores

Quando, também no mesmo depoimento, foi perguntado pelo jornalista sobre a que ele atribuiria a “falta de respeito” e o “afrouxamento” do isolamento, Mandetta respondeu com quem: “muita gente que vê fake news”, “pessoas que veem complô mundial”. E foi mais direto em uma frase em particular: “Quando você vê pessoas entrando em padaria (…) encostadas, grudadas (…) isso é claramente uma coisa equivocada.” Na quinta-feira, 9, Bolsonaro foi a uma padaria e lanchou no balcão, desobedecendo ao decreto do governo do Distrito Federal.

 4  Novo confronto aberto com a posição de Bolsonaro

Ainda na mesma entrevista, Mandetta foi indagado se as atitudes de desrespeito às orientações sanitárias por parte do próprio presidente da República o constrangeriam. Ele disse que “preocupa, porque a população olha e pensa ‘será que o ministro da Saúde é contra o presidente?'”. E enfatizou: “Se eu estou ministro da Saúde é por obra de nomeação do presidente.” A conclusão dele foi desejando “uma fala única”. “O brasileiro não sabe se escuta o ministro da Saúde ou o presidente.”

 5  Fim de semana com Ronaldo Caiado

Logo ao ser eleito governador de Goiás, Ronaldo Caiado convidou Luiz Mandetta para ser secretário da Saúde, mas havia uma indicação para ministro no caminho – dizem, com o aval, do próprio Caiado. Novo convite foi feito dias atrás, quando da quase demissão. O fato de terem passado dias juntos, com as respectivas mulheres é notadamente um estreitamento da união entre dois correligionários já bastante próximos. A ver, nesta semana, se isso pode ser mais do que só amizade.

Numa eventual saída de Mandetta, o Brasil se tornará a única democracia do mundo cujo governo central baterá de frente com as regras de isolamento social, preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como único paliativo contra o avanço de casos e mortes da Covid-19 e para não sobrecarregar o sistema público.

Por uma estranha coerência, sua demissão seria a lógica. No momento gravíssimo em que vive o mundo inteiro, nenhuma republiqueta se dá ao luxo mórbido de ter seu presidente engalfinhado num franco conflito com seu próprio ministro da Saúde.

Único antídoto

Em outubro de 2018, o Brasil democraticamente optou pelo desgoverno que está no comando desde janeiro do ano passado. O direitista Mandetta não contempla o projeto(?) de extrema-direita que chegou ao poder. Sua saída vai tornar ainda mais clara, aos olhos do planeta, a genuína política do governo de Jair Bolsonaro, que pouco tem a ver com a postura protocolar de seu ainda ministro.

E então haverá duas opções, uma civilizatória e outra rumo à barbárie. No meio de tudo isso, o único antídoto será alguém levar a sério o conteúdo de algum exemplar da Constituição Federal.

Como disse certa vez um poderoso hoje condenado, num dia histórico e funesto de nossa frágil República – quando então presidente e ministro que agora divergem estiveram do mesmo lado -, que Deus tenha misericórdia desta Nação.


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Elder Dias
Jornalista, servidor federal, ambientalista e esmeraldino por natureza. Buscando sempre aliar paciência de Jó com perseverança de Cafu.