Um ranking de grandes atletas do futebol que, mais do que jogadores, foram (ou são) seres humanos notáveis

Há uma imagem estereotipada – e se há um estereótipo, há uma origem que dá suporte para que ele exista – de que o jogador de futebol é uma figura alienada do mundo que o cerca. Talvez porque seja alguém que ganha dinheiro com algo que para o restante das pessoas é apenas diversão. Talvez por virem geralmente de origem humilde e, em grande parte, sejam sem muita instrução.

O fato é que alguns jogadores fogem a essa “norma” e não cabem no stablishment. Abaixo está uma lista de craques que, de uma forma ou outra, foram ou são outsiders em relação à política e aos costumes de sua época. Alguns têm ou tiveram a vida ameaçada; outros resistiram a negociar sua dignidade; outros, ainda, pagaram com a vida por seu modo particular de vivê-la. Um segundo fator que une todos os listados? Foram ídolos de suas seleções.

Abaixo, um ranking desses grandes atletas e humanos notáveis.

11
Sukur, o perseguido
Sukur 534x300 - 11 craques polêmicos que não se renderam ao sistema

Ele entrou para a história das Copas do Mundo como o autor do gol mais rápido de todas as edições da competição. Aos 10s8 segundos da semifinal contra a Coreia do Sul, em 2002, Hakan Sukur balançou as redes adversárias. O turco se tornou herói nacional naquela campanha fantástica de sua seleção, 3ª colocada do Mundial. Depois de sua trajetória esportiva, o atacante foi para a vida política e se elegeu deputado pelo partido do presidente Recip Erdogan. Porém, sua proximidade com o clérigo Fethullah Gulen, inimigo político de Erdogan, bem como declarações no Twitter em que ele teria criticado o presidente, tornaram o ex-ídolo um exilado político. Sukur mora hoje nos Estados Unidos e não pode voltar à Turquia, sob risco de ser preso e mesmo condenado à pena de morte.

10
Breitner, o sincero
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Paul Breitner penou por dizer sempre o que pensava. Quando o Muro de Berlim ainda estava de pé, tinha fortes posições políticas e não fugia de polêmicas. Campeão mundial em 1974 pela Alemanha, só voltaria a jogar pela seleção em 1981. É que chamara o então técnico Helmut Schön de “senil”, o auxiliar Jupp Derwall de “idiota” e seus colegas de time de “burros”. Em plena guerra fria, foi considerado maoísta por confessar que tinha um livro do ditador chinês. Foi também o técnico da seleção com recorde negativo de tempo de permanência: 17 horas, tempo que levou para ser reprovado pelo conselho da federação alemã, em 1998. Sobre o motivo da rejeição, disse Breitner à época: “Talvez seja sincero demais para ser técnico da seleção.”

9
Best, o boêmio
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É do norte-irlandês talvez a frase mais sarcástica de um jogador de futebol para definir hedonismo: “Gastei muito dinheiro com bebidas, mulheres e carros potentes. O resto eu desperdicei.” Em plena efervescência da beatlemania, George Best foi o primeiro jogador pop star do futebol mundial e o maior frasista de seu ramo. Nunca disputou uma Copa do Mundo — sua seleção, a Irlanda do Norte, não conseguiu êxito nas eliminatórias de 1962 a 1978 —, mas é considerado um dos maiores jogadores da história do Manchester United. Sua vida de “bon vivant” foi também o que o matou: ainda tinha carreira em alta quando se entregou ao álcool. Sofrendo de cirrose, passou por transplante de fígado em 2002, mas voltou a beber mesmo assim. Morreu em 2005, aos 59 anos. Como último e digno ato, deixou-se fotografar moribundo no hospital Cronwell, em Londres, pedindo para que o registro fosse legendado com uma última grande frase: “Não façam como eu.” O aeroporto de Belfast, sua cidade natal, foi rebatizado com seu nome.

8
Redondo, o indomável

Redondo 200x300 - 11 craques polêmicos que não se renderam ao sistemaUm dos mais talentosos jogadores argentinos dos anos 90, Fernando Redondo foi um habilidoso volante que se destacou especialmente no Real Madrid. Depois de jogar a Copa de 1994, envolveu-se em uma polêmica por causa de uma ordem bizarra do então técnico da seleção Daniel Passarella em 1998: para serem convocados, todos os atletas deveriam ter cabelos curtos. “Eu disse a Passarella que não iria cortar meu cabelo, porque ele faz parte da minha personalidade. E, antes de ser jogador, eu sou uma pessoa.” O gênio forte do cabeludo Redondo já havia sido demonstrado em 1990, ao recusar a convocação do técnico Carlos Bilardo para a Copa. Mais tarde ele confirmaria que não concordava com o estilo de jogo proposto pelo treinador.

7
Cruijff, o sarcástico
Cruijff 533x300 - 11 craques polêmicos que não se renderam ao sistema

Vice-campeão mundial em 1974, ano em que a Laranja Mecânica comandada por ele em campo perdeu a decisão para a Alemanha, Johann Cruijff já jogava no Barcelona em 1973, quando resolveu dar ao terceiro filho o nome de Jordi, o padroeiro da Catalunha (conhecido no Brasil como São Jorge). Vivia-se ainda o período ditatorial do franquismo e tinha sido banida qualquer referência aos símbolos nacionais catalães. Como não pôde então registrar o filho em Barcelona, Cruijff se dirigiu ao país natal e Jordi pôde ser Jordi em Amsterdã. Para debochar de Franco, se deixou ser fichado como “máquina agrícola”, já que tinha sido considerado “muito caro” como jogador de futebol. Outra ditadura, a do argentino Jorge Videla, teria sido o motivo de sua não ida à Copa de 78. Por atitudes como essas, Cruijff é reverenciado por torcedores do Barcelona e nacionalistas da Catalunha muito além do craque que foi em campo. É um dos maiores jogadores de todos os tempos e o maior do futebol da Holanda.

6
Sócrates, o democrata
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Sócrates, que jogou as Copas de 82 e 86, pode ser considerado o maior “antijogador” da história do futebol brasileiro. Revelação do Botafogo de Ribeirão Preto (SP), sua terra natal, recusou-se a ir para o Corinthians antes de terminar a faculdade de Medicina. No Timão, além de um dos maiores ídolos da história, foi um dos responsáveis pela implantação da Democracia Corintiana, movimento em que decisões sobre o time e o clube eram votadas por dirigentes, jogadores e funcionários. Outra prova de sua politização foi subir e discursar nos palanques das Diretas, em 1984. Era contra a concentração antes dos jogos. Sempre fumou e bebeu, mesmo quando atleta. O álcool foi o causador de sua morte prematura, aos 57 anos, em 2011.

5
Obdulio, o digno

Obdulio - 11 craques polêmicos que não se renderam ao sistemaO principal causador da maior tragédia do futebol brasileiro – maior até que o 7 a 1 de 2014, acreditem – era muito mais do que jogador e capitão da seleção uruguaia. Em 1948, liderou uma greve dos atletas do país por condições mais humanas no trabalho. Já no fim da carreira, se recusou a receber uma premiação diferente dos colegas. Quando seu clube fechou patrocínio, em 1954, a única camisa do time em que a marca do anunciante não estava estampada era a sua. Ele não permitiu. “Antes nós, os negros, éramos puxados por uma argola no nariz. Esse tempo já passou”, justificou sua atitude. Logo após o Uruguai bater o Brasil na final da Copa de 50, em plena noite de Maracanazo, o durão Varela se viu consolando brasileiros nos bares do Rio: estava arrependido por ter sido campeão e, ao mesmo tempo, ter causado tanto dor àquela gente. Não pensava que o futebol significasse tanto. Morreu pobre, em 1996.

4
Caszely, o bravo

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Considerado um dos maiores jogadores da história do Chile, o socialista Carlos Caszely, já craque da seleção, apoiou o governo de Salvador Allende no início dos anos 70 e foi também uma das celebridades do país a se opor frontalmente à ditadura de Augusto Pinochet. Tão frontalmente que, recebido com a seleção em La Moneda, o palácio presidencial, não estendeu a mão ao general, em solenidade pela conquista da vaga à Copa da Alemanha, em 74. Talvez isso tenha colaborado para que tivesse sua mãe sequestrada e torturada por agentes do governo naquele ano. Em 1980 e 1988, fez campanha contra o governo, respectivamente pela rejeição à nova Constituição e pela opção “não” no plebiscito que decidia sobre a manutenção de Pinochet no poder. Jogou as Copas de 1974 e 1982 e é o terceiro maior artilheiro da história da seleção chilena.

3
Drogba, o pacificador
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Em 2007, a Costa do Marfim passava por uma duríssima guerra civil. Na Europa, entretanto, um marfinense virava astro do futebol: Didier Drogba, ícone do reerguimento do Chelsea no futebol inglês. E ele era o maior nome da seleção que enfrentaria Madagascar pela Copa da África. Corajosamente, o atacante foi até o palácio governamental e exigiu do então presidente Laurent Gbagbo que o jogo fosse realizado em Bouaké, que estava sob controle dos rebeldes. Sem alternativa diante da popularidade de Drogba, o mandatário cedeu. E os atletas foram recepcionados com festa, desfilando em um tanque das forças oposicionistas até o estádio. Lá, 25 mil pessoas, apoiadores e rivais do governo, cantaram juntas o hino nacional. No alto, vendo tudo da tribuna estavam, lado a lado, o presidente Gbagbo eo líder guerrilheiro Guillaume Soro, que depois se tornaria primeiro-ministro do país. A Costa do Marfim goleou Madagascar por 5 a 0 – um gol para cada ano da guerra que, a partir daquele momento, estaria com dias contados. Pelo seu feito em prol da paz, Drogba chegou a ser considerado uma das cem pessoas mais influentes do mundo, pela revista Time. Em 2014, disputou a Copa do Mundo no Brasil. Hoje, aos 40 anos, ainda joga – atual pelo Phoenix Rising, da United Soccer League (USL), nos Estados Unidos.

2
Pasic, o idealista
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Quem colecionou o álbum de figurinhas da Copa de 82 – aquele dos chicletes Ping Pong – vai se lembrar deste nome: Pasic. Ele era um dos destaques da Iugoslávia, a qual era um barril de pólvora prestes a explodir por causa de conflitos étnicos. Atuou a maior parte de sua carreira pelo FK Sarajevo, nome também da capital da Bósnia-Herzegovina. O bósnio, porém, pendurou as chuteiras pelo Stuttgart, time alemão, retornando à terra natal pouco antes de a guerra eclodir. Poderia ter escapado dos horrores do conflito – recebeu convite para morar na Alemanha, mas preferiu ficar por uma causa mais do que justa: em meio ao horror dos bombardeios, Pedrag Pasic ensinava futebol às crianças de Sarajevo. Enquanto isso, sua cidade e sua nação sofria limpeza étnica pelas mãos de Radovan Karadzic, que, coincidência triste, fora psicólogo do FK Sarajevo quando o atacante defendeu o clube. O campo de terra onde Pasic começou a jogar bola se tornou hoje um cemitério de vítimas da guerra, que vitimou a Bósnia de 1992 a 1995. Sua escolinha de futebol, no entanto, deu razão de viver a inúmeras crianças. Em 2014, Pasic teve o orgulho de assistir à seleção da Bósnia-Herzegovina participar, no Brasil, de sua primeira Copa do Mundo.

1
Mekhloufi, o libertador
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A Argélia deu à França seu maior ídolo no futebol – Zinedine Zidane é filho de imigrantes da ex-colônia. Antes de ele nascer, porém, um argelino já fazia fama no futebol de lá: Rachid Mekhloufi, do Saint-Étienne, era nome certo para disputar, na Suécia, a Copa do Mundo de 1958 pela seleção francesa – a mesma que na semifinal seria derrotada pelo Brasil de Pelé e Garrincha.
Mas o atacante de 21 anos recusou a convocação: com outros jogadores de mesma origem, Mekhloufi fugiu para atuar em outra seleção – a da Frente Nacional de Libertação (FLN). A equipe se tornaria o braço esportivo da luta pela independência da Argélia. Mesmo ser ser reconhecida pela Fifa, disputou amistosos na Europa e na África, a começar da Tunísia. Cada amistoso jogado era também uma vitória política, mas não apenas isso: o time era mesmo muito bom de bola e fez fama ao derrotar nomes do nível de Hungria, Checoslováquia e Iugoslávia, que tinham grandes jogadores na época.
A Argélia se tornou independente em 1962 e Mekhloufi pôde voltar a jogar na França, já elevado a herói nacional em sua terra e, claro, atendeu às primeiras convocações da seleção. Por ironia do destino, ele representaria seu país em sua Copa do Mundo de estreia, em 1982, como treinador. Na ocasião, Rachid Mekhloufi conseguiu o feito de derrotar a poderosa Alemanha de Breitner e Rummenigge, que se tornaria vice-campeã. A Argélia ficou fora da 2ª fase prejudicada por um alentado “jogo de compadres” germânicos: a Áustria perdeu para os alemães por 1 a 0, placar que coincidentemente classificava as duas seleções. Hoje Mekhloufi tem 81 anos e é embaixador mundial de seu ex-clube na França.

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